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Escriba

Rabiscos virtuais

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

1.
(1979 – ANISTIA GERAL, AMPLA E IRRESTRITA)- Não, não jogue fora o que você escreve. Os cadernos brochuras, espirais, guardanapos, materiais onde o imaterial de suas ideias foi fixado. Não é lixo, não é rejeito. Não! Vai guardando em pastas, gavetas. Deixando os rastos por aí. E quando você não estiver mais por aqui, quem sabe, alguém possa encontrar as tuas pistas, os teus os teus traços, o teu tempo.

2.
(2020 – CALA A BOCA!) – Eu continuo arrumando os livros, mano! E os arquivos e as telas. Mesmo que, agora, sejam bites, algoritmos, rabiscos virtuais, ilusões desenhadas no ciberespaço. Permanece o desafio de não transformar os rabiscos em lixo, em entulho. Juntar o que escrevemos para que não desapareçam dentro dos laptops, dos notebooks, dos smartphones, dentro de nós. Imagine a solidão de almas de cada sílaba, cada palavra, cada frase contida nos textos/bites perdidos? Rabiscos são gentes, mano! São genes virtuais.

3.
(2022 – O PASSADO DO FUTURO): – Não! Este país não morreu mano! Apenas aguarda o momento em que sairá da UTI, da longa agonia. O país civilizado ainda será possível. Mas os estragos já são enormes. E sem essa de “naquele tempo que era bom…”. Sem essa aranha. A única saudade que eu sinto é a saudade do futuro. Aquela das livres caminhadas coletivas pelas ruas do centro, pelos parques cheios de gentes feito bando de beija-flores. Que permaneça a imagem/rabisco da esperança. Não podemos desesperar: ainda é permitido sonhar com o futuro. Confesso que tenho saudade da época em que acreditávamos que o pior ainda estava por vir.

4.
(2026 – VIVA E DEIXE VIVER):- Na tarde lenta que avança vejo na tela da TV mais cenas do genocídio em Gaza. Crio coragem, levanto da poltrona e vou ao banheiro. Vivo em uma pequena cabana às margens do oceano. Pousada de paz e bem simples. Acendo a luz e dou de cara com uma enorme aranha, na parede em frente. Ela, maior que o diâmetro de minha mão aberta, me observa impávida. Fico estático e penso no medo de aranhas ao longo de minha infância e juventude. Ela ali, imóvel e hipnótica. De imediato, busco soluções: “… dou com chinelo na cabeça dela? Mato e arregaço e jogo pra fora da cabana? Nada, finjo que não vi, mijo e saio do banheiro…” Segundos após, observo cinco aranhinhas caminhando atrás da aranha Aranha-mãe. Tomo um jato d’água na alma e me ligo na noção do “viva e deixe viver”. Abro a bragueta da calça e alivio um jorro dos deuses! Nisso, a Aranha-mãe segue o seu caminho com seus cincos bebês-aranhas através da janela do banheiro. Volto aliviado para a frente da TV. Na tela o caos. Centenas de pessoas se matando por comida em Gaza, idosos, homens e crianças, enquanto a reportagem trata tudo como normal. Será mesmo, Aranha-mãe?

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Gilberto Motta é escritor/escriba de rabiscos virtuais. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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