Curta nossa página


VIAGEM LITERÁRIA

A HISTÓRIA DO MUNDO CABE NAS PÁGINAS DE UM LIVRO

Publicado

Autor/Imagem:
Nancy de Souza - Francisco Filippino

Estava eu no meio da mata, pés descalços, ouvindo aqueles ruídos que só quem já se embrenhou numa floresta conhece, de repente me deparo com um indígena saído de entre as árvores, sendo perseguido por uma turba de portugueses, armado com arcabuzes. Assustada fecho o livro para não ser alcançada pela sanha daqueles homens que adentram em terra alheia para se apossar de suas riquezas, escravizar e tomar para si terras de outrem. Respiro aliviada e agradeço ao autor do livro “Rio antes do Rio” por partilhar comigo as origens de nossa história.

Não satisfeita desejo ir mais fundo e mergulho na trilogia de Laurentino Gomes: “Escravidão”. Agora, estou em algum ponto da costa da África, metida num compartimento sem janelas, com grilhões ferindo meus pés e mãos, sem entender o que está me acontecendo.

Sofro, por toda aquela gente arrancada de sua terra e jogada no fundo pútrido de um navio maldito. Estou ali sufocada e apavorada, mas resiliente. Há que chegar o tempo em que seremos donos do nosso destino.

Cansada de tanta agonia resolvo caminhar a esmo com Don Quixote, para rir de suas loucuras e concordar com a parcimônia de Sancho Pança. Tempos depois embarco nas memórias de Proust e consigo até sentir o perfume de suas flores prediletas e do café da manhã preparado por Françoise, a serviçal da família. Estou numa França de outros tempos, vivendo a vida de outras pessoas e conhecendo seus costumes e crenças. Viajo sem sair de casa.

Como poderia saber das decisões erradas de Napoleão, se não fosse pela obra de Leon Tolstói. Marchei com os soldados franceses sob um frio terrível. Minhas botas estragaram e nem comida encontrava nas cidades que invadíamos. O povo destruiu tudo, incendiaram silos para nos deixar à míngua. No final dessa viagem estava extenuada e, pude olhar para o presente e pensar que não aprendemos nada com o passado.

Dante me levou para o inferno e olhei com pavor todo o sofrimento imposto aos pecadores, numa idade média cheia de obscurantismo.

Todo tipo de gente sofria naquele lugar, dividido em estágios, desde os nobres até papas. Peguei na mão de Virgílio para não me perder no caminho e conheci Beatriz, a amada de Dante.

Com Gabriel Garcia Marquez vivi cem anos de solidão, junto aos Buendia. O realismo fantástico interpretando o mundo de outra forma.

Ah, estive na revolução dos bichos, levada por George Orwell, que precisou me meter numa fazenda em motim para mostrar a cupidez dos homens. Como aqueles animais dizem tanto do que nós seres humanos somos.

Com Clarice me tornei introspectiva, mergulhada em elucubrações e com Virginia Wolf conheci a Londres do século XIX, caminhando com os pés de Mirs Dalloway.

Com Conceição Evaristo vive em meu próprio tempo com as dificuldades da periferia. Com a “Apolinária” de Bianca Santana, trabalhei em casa de família, consegui criar a filha e vi minha neta se formar e escrever o livro. Tudo isso me metamorfoseando de leitora em personagem e embarcando na deliciosa viagem literária.

Como cronista dou uma espiada no mundo exterior, mas como leitora aprendo de um jeito mágico a história de todos os tempos e de todas as gentes. Vivo nas páginas de um livro e construo meu arsenal de conhecimento para interpretar meu próprio mundo.

…………

Nancy de Souza, escritora e artista visual, formada em Letras pela UFRJ e Pintura pela EBA/UFRJ. Pós graduação em Escrita Criativa e Narrativas-PUCRS. Autora de: Aventuras e Desventuras de Benjamin James (ELLA), Crônicas Minhas (Fontenele) e infantojuvenil Binduim da Floresta (Independente).

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.