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Lívia

Quadrilha moderna

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Vocês conhecem o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade? A primeira estrofe é a seguinte: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

“Quadrilha” foi publicado em 1930 no primeiro livro de Drummond, Alguma poesia. Se ele escrevesse o poeminha umas cinco décadas depois, com base no que então acontecia em uma cidadezinha do interior gaúcho – e, sem dúvida, por todo o Brasil –, a estrofe poderia começar assim: Henrique amava Lívia que amava Edu que amava Nina, Lívia e Sílvia…

Acharam meio confuso? Vou contar como tudo aconteceu, desde o início, tintim por tintim, para não deixar dúvidas.

Estava eu de volta à cidadezinha do Rio Grande do Sul onde residia minha família, quando conheci Lívia.

Éramos colegas de trabalho e logo ficamos amigas íntimas. Tornei-me sua confidente.

Como trabalhávamos em mesas próximas, as conversas eram inevitáveis.

Foi durante esses bate-papos informais que ela me contou de seus amantes.

Casada com Henrique, tivera vários amantes, todos casados também. Ela os preferia por serem discretos, terem tanto a perder quanto ela.

Só que, contrariando os versos de Chico Buarque, que diz que atrás de um homem triste há sempre uma mulher feliz, Lívia não o era, ou não parecia sê-lo. Muito ao contrário, exibia o tempo todo um ar melancólico e desanimado. O que não parecia diminuir em nada a atração que exercia sobre os homens.

Vocês devem estar se perguntando: por que diabos ela contava para mim suas aventuras amorosas?

Ora, porque éramos amigas íntimas. Mas ela não contava para aliviar eventuais culpas, não se sentia culpada de nada.

Ela contava porque, qual seria a graça de ser desejada e ter vários homens, se não pudesse contar para ninguém? É como dizem os caras, melhor do que sair com a Angelina Jolie é contar para os amigos depois, no bar: “cês sabem, tô traçando a gostosa da Angelina Jolie!”

Bom, voltando à nossa história, sem culpas e sem julgamentos: quem era eu para julgá-la? Nós nos divertíamos muito, um pouco inconsequentes talvez, mas quem não o é aos vinte e poucos anos?

O caso que vou contar aconteceu quando ela estava namorando um colega, o Edu, casado com Sílvia, e amante de Nina.

Deu nó na cabeça? É que o cara era um safado mesmo, tinha duas amantes. A minha amiga e uma outra, ex-estagiária. O pior é que ele era baixinho, enfezadinho – um burrichó de campo ruim, como a gente diz no Sul. Mas, segundo Lívia, tinha qualidades ocultas, avantajadas.

Como Nina não trabalhava e era separada, Edu costumava sair durante o horário de serviço para encontrá-la na casa dela.

As amantes sabiam uma da outra e o ciúmes entre elas era recíproco. Só não tinham ciúmes da esposa; ela, a matriz, tinha direitos inalienáveis, assim julgavam as filiais.

Certo dia, lá pelas 11, Edu mandou uma geral:

– Bah, deu pra mim, vou sair para almoçar.

Lívia olhou para mim, com uma expressão furiosa. Sabíamos que seria um almoço longo, com direito a sobremesa – pudim de Nina em molho branco.

Minha amiga tinha o telefone da outra amante, assim, pediu para um colega ligar para lá.

– Melhor não, Lívia…

– Vem comigo que te convenço a ligar – respondeu a enraivecida filial. E, pegando a mão do colega, levou-o até o almoxarifado, que estava vazio, trancando a porta depois de entrar.

Este poderia ser o momento de enriquecer o conto com tórridas cenas de sexo dentro do almoxarifado, capazes de derrubar as prateleiras. Mas conto apenas o que vi ou escutei. Não sei o que ela fez ou prometeu fazer, se ele ligasse. O fato é que, uns 15 minutos depois, o recalcitrante saiu do almoxarifado com a mulher em busca de vingança. Seus olhos brilhavam de determinação (e talvez contentamento) quando pegou o telefone, discou e exigiu falar com Edu. Quando este atendeu, o recém-convertido ao livismo disfarçou a voz e disse apenas três palavras:

– Tudo descoberto. Fuja!

A cena que vi quando Edu chegou, esbaforido, jamais vou esquecer. O homem, que era moreno, estava pálido, olhos arregalados, olhando desconfiado para todos os lados.

Adivinhem se ele perguntou para alguém por que tinham ligado para ele?

Deve estar imaginando, pensando até hoje quem sabia…

Soubemos depois que Edu, que trabalhava no Departamento Financeiro, havia desviado algum dinheiro da empresa. Foi isso que o apavorou, que o fez fugir para não mais voltar. E não era uma quantia grande, que justificasse a perda de um emprego razoável.

Bem feito! Quem mandou trair a amante?

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