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O LADO B DA LITERATURA

AUGUSTO DOS ANJOS, O MAGRO DO PAU D’ARCO

Publicado

Autor/Imagem:
Cassiano Condé - Hemeroteca Digital e Francisco Filippino

Augusto dos Anjos nasceu num engenho. E talvez isso explique muita coisa, embora, como quase tudo nele, explique sem explicar. Nasceu no Engenho Pau d’Arco, na Paraíba, em 20 de abril de 1884, quando o Brasil ainda saía, meio zonzo, das velhas estruturas rurais e escravocratas, e quando a literatura brasileira parecia muito satisfeita com seus perfumes, seus mármores, seus cisnes e suas belas mortes decorativas.

Pois veio aquele menino magro, de nome comprido — Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos — e resolveu estragar o salão.

Não de propósito, talvez. Ou talvez sim. Com os poetas, nunca se sabe. Principalmente com os que parecem trazer no rosto, antes mesmo da obra, uma espécie de aviso. Órris Soares, seu amigo, conterrâneo e primeiro grande defensor, deixou dele uma descrição que, lida hoje, ainda parece retirada de um retrato expressionista: Augusto era magro de uma magreza quase dolorosa, com olhos fundos, olheiras, testa descalvada, corpo estreito, andar incerto. Não era o poeta dos salões. Era o poeta que parecia ter saído de uma febre.

E aqui já aparece um desses desvios de parentela que o Lado B tanto aprecia: Órris Soares, o amigo que ajudou a empurrar Augusto para a posteridade, era tio-avô de Jô Soares. Sim, leitor, há sempre uma fresta brasileira por onde a literatura, o humor, a Paraíba, o jornalismo e a televisão acabam se encontrando. Órris, muito antes do menino Jô aparecer para fazer graça diante das câmeras, já fazia coisa séria diante dos mortos: cuidava da memória do amigo, organizava-lhe versos, escrevia prefácio, defendia aquela poesia que muita gente boa, naquele tempo, achava estranha demais para ser aceita de pronto.

Estranha, aliás, é palavra modesta.

Augusto dos Anjos não chegou pedindo licença à literatura. Chegou falando em verme, micróbio, escarro, carbono, molécula, putrefação, cadáver, sombra, dor, decomposição. No meio de uma poesia acostumada a botar luvas nas palavras, ele entrou com as mãos nuas. E, com essas mãos, mexeu no que quase ninguém queria ver: a matéria pobre do corpo, o fim das ilusões, o egoísmo humano, a miséria da carne, o espanto de existir dentro de um organismo condenado a apodrecer.

O curioso é que Augusto não era um ignorante feroz, desses que quebram a vidraça porque não conhecem a casa. Era bacharel em Direito, formado no Recife, leu filosofia, ciência, naturalismo, evolucionismo, pessimismo alemão, essas coisas todas que às vezes ajudam um homem a pensar melhor e, quase sempre, a sofrer com mais método. Voltou à Paraíba, deu aulas, casou-se com Esther Fialho, foi tentar a vida no Rio de Janeiro. Não consta que a vida tenha tentado muito por ele.

Era pobre. E era magro. Não pobre de folhetim, porque essa pobreza sentimental costuma render belas frases e pouca verdade. Pobre no sentido concreto de quem precisava trabalhar, dar aulas, contar dinheiro, depender de ajuda familiar para publicar livro. O seu Eu, lançado em 1912, foi custeado pelo irmão Odilon. Teve tiragem de mil exemplares. Mil exemplares para um poeta que, depois, seria um dos mais lidos, citados, decorados, mal compreendidos e repetidos do Brasil. A posteridade, como se sabe, tem dessas grosserias: chega tarde, não paga os remédios e ainda posa de generosa.

O Eu é um livro único em vários sentidos. Único porque foi o único volume publicado por Augusto em vida. Único porque não parece completamente com nada antes dele. Único porque ainda hoje causa uma sensação curiosa: o leitor entra pensando encontrar apenas morte e descobre, por baixo daquela lama verbal, uma ansiedade brutal de vida. Augusto falava tanto de decomposição porque sabia que tudo pulsa. Até o verme, em sua poesia, trabalha. Até o cadáver é movimento. Até a matéria morta tem uma biografia secreta.

Não por acaso, é perigoso chamar Augusto apenas de “poeta da morte”. O rótulo pegou, é prático, cabe em apostila, resolve palestra de quinze minutos. Mas empobrece o homem. Augusto dos Anjos não era um rapaz romântico acariciando caveiras à luz de vela. Era algo mais incômodo: um poeta que viu a vida pelo lado de dentro da carne. Onde outros encontravam rosa, ele via processo químico. Onde outros viam beijo, ele via instinto, ruína, hereditariedade, febre. Onde outros escreviam “alma”, ele punha o corpo inteiro sobre a mesa.

E, no entanto, havia alma. Muita alma. Talvez por isso sua poesia sobreviva ao vocabulário científico que poderia, em mãos menores, ter virado apenas bizarria de época. Em Augusto, a palavra áspera ganha música. O termo técnico vira soluço. O verme entra no soneto sem pedir desculpas e, quando se percebe, já está participando da liturgia.

Há nele uma espécie de cristianismo sem conforto, uma metafísica sem almofada, uma dor que não se contenta em ser bonita. Augusto não quer consolar ninguém. Também não quer ser consolado. Parece mais interessado em registrar, com precisão cruel, que o ser humano é um animal vaidoso metido dentro de um destino orgânico. Talvez por isso os estudantes gostem tanto dele quando o descobrem fora das obrigações escolares. A adolescência, esse laboratório de angústias, reconhece logo um parente.

Mas convém não transformar o poeta num fantasma desde o nascimento. Augusto viveu. Amou. Casou. Teve filhos. Deu aulas. Brigou. Pediu demissão. Mudou de cidade. Procurou emprego. Foi diretor de grupo escolar em Leopoldina, Minas Gerais. Andou pelas ruas como qualquer homem magro, talvez carregando dentro de si um barulho maior do que o corpo permitia. Não era só uma caveira literária. Era um professor paraibano tentando sobreviver num país que, ontem como hoje, costuma tratar seus professores e poetas com uma economia de afeto bastante rigorosa.

Em 1914, foi para Leopoldina. Ali, naquele pedaço de Minas, a vida lhe reservou o último capítulo. Morreu em 12 de novembro daquele ano, aos trinta anos, vítima de pneumonia. Trinta anos. Idade em que muitos ainda estão escolhendo o tom da própria voz, Augusto já havia deixado a sua inteira, definitiva, incômoda, reconhecível à primeira dentada.

Morrer jovem ajuda a lenda, é verdade. Mas nem toda morte jovem fabrica um autor. O que sustentou Augusto não foi a pneumonia, nem a magreza, nem a pobreza, nem o retrato sombrio. Foi a obra. Uma obra que parecia feia demais para os delicados e filosófica demais para os apressados. Daí a importância de Órris Soares. O amigo entendeu que ali havia mais do que extravagância. Havia técnica, forma, coragem verbal, pensamento. Havia um poeta que o Brasil ainda não sabia ler.

Depois da morte, como costuma acontecer com os que incomodam bem, Augusto foi sendo adotado por sucessivas gerações. Uns o leram como pessimista. Outros como cientificista. Outros como pré-modernista. Outros como simbolista extraviado, parnasiano contaminado, expressionista antes da hora, filósofo de necrotério, místico do carbono. Tudo isso ajuda um pouco. Nada disso resolve.

Augusto dos Anjos permanece porque continua escapando. Está no livro escolar, mas não cabe na escola. Está nas academias, mas parece desconfiar delas. Está na boca do povo, mas nunca virou fácil. Há versos seus que muita gente sabe de cor sem talvez saber exatamente por que os sabe. É que Augusto tem esse dom raro: suas palavras dão a impressão de terem sido arrancadas de uma parte do corpo que não aparece nos retratos.

O velho escriba que vos fala confessa certa simpatia por esses autores que não se deixam pentear. A literatura brasileira precisa deles. De tempos em tempos, quando tudo parece arrumado demais, vem um magro do Pau d’Arco, pobre, nervoso, professor, bacharel, doente de mundo, e lembra que a poesia também pode nascer do feio, do lodo, do laboratório, do cemitério, da sala de aula, do micróbio, da angústia e da fome.

Augusto morreu em Leopoldina. Mas o seu Eu, esse pronome pequeno e imenso, continuou andando. Saiu do engenho, atravessou a Paraíba, passou pelo Recife, pelo Rio, por Minas, pelas mãos de Órris, pelas edições sucessivas, pelos estudantes, pelos professores, pelos leitores de madrugada. E ainda hoje, quando alguém abre o livro, lá está ele, magro e inteiro, perguntando ao leitor se este tem coragem de olhar para dentro da própria matéria.

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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

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