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Respingos na mesa

A mosca na sopa (nossa e do Rauzito) já não incomoda

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Raul Seixas cantava que era a mosca que pousou na sopa. A imagem nunca foi apenas sobre sujeira. A mosca era o incômodo, a provocação, a presença inconveniente que desafia o conforto da mesa e perturba a falsa normalidade das coisas.

Talvez o Brasil tenha mudado justamente quando passou a conviver bem demais com ela.

Não porque os problemas tenham desaparecido, mas porque fomos desenvolvendo uma estranha habilidade de absorver o desconforto sem interromper o almoço. A política degrada, escândalos se acumulam, tragédias se repetem, instituições se tensionam, relações perigosas surgem diante dos olhos de todos e, ainda assim, o país continua funcionando como se nada fosse suficientemente grave para produzir ruptura real.

A semana terminou cheia dessas pequenas moscas pousando sobre a mesa nacional. O governo sofreu derrotas importantes, o Congresso ampliou sua pressão sobre o Executivo, o Supremo voltou ao centro do debate político, o caso Banco Master continuou espalhando desconforto pelos corredores de Brasília e as enchentes no Nordeste escancararam novamente um país que parece sempre pego de surpresa pelas mesmas tragédias.

Nada disso produziu espanto duradouro.

Talvez porque o Brasil tenha se especializado em transformar crise em rotina. O escândalo permanece em evidência por algumas horas, no máximo alguns dias, até ser empurrado pela próxima turbulência. A indignação já não amadurece. Ela circula rapidamente, produz frases fortes nas redes sociais, rende vídeos, entrevistas, discursos inflamados e depois desaparece antes mesmo que alguém consiga apontar exatamente quem deveria assumir a responsabilidade pelo problema.

O caso do Banco Master parece sintetizar bem esse ambiente em que todos circulam ao redor da fumaça, mas poucos demonstram disposição para encostar no fogo. Relações perigosamente próximas entre mercado financeiro, política, influência institucional e interesses privados vão surgindo aos poucos, quase sempre acompanhadas daquela cautela típica de Brasília, onde ninguém rompe inteiramente com ninguém porque todos parecem precisar continuar convivendo no dia seguinte.

As tragédias também passaram a obedecer a esse mecanismo de absorção. As chuvas devastam cidades, famílias perdem tudo, vidas desaparecem sob a lama e rapidamente surgem explicações corretas, técnicas e institucionais. Mudanças climáticas, falhas históricas, ausência de infraestrutura, responsabilidades compartilhadas entre municípios, estados e União. Tudo verdadeiro. E talvez exatamente por isso o efeito final seja tão confortável: a responsabilidade acaba diluída numa espécie de neblina burocrática onde ninguém parece carregar o problema por inteiro.

A política apenas reproduz, em escala maior, um comportamento que já contaminou quase tudo. Empresas criam labirintos digitais para evitar que alguém precise decidir alguma coisa de verdade. Relações pessoais terminam por aplicativo para fugir do desconforto de uma conversa. Redes sociais terceirizam opinião para influenciadores. Pais terceirizam presença para telas. Governos terceirizam desgaste para o Congresso. O Congresso terceiriza conflito para o Supremo. E o Supremo frequentemente acaba administrando temas que a própria política parece incapaz de enfrentar sem tutela.

Fernando Haddad, ao comentar pesquisas recentes, sugeriu que apenas uma espécie de “lavagem cerebral coletiva” explicaria determinados movimentos da opinião pública. A frase talvez revele mais do que irritação momentânea. Existe ali uma dificuldade crescente de aceitar que parte da população simplesmente enxergue o país de forma diferente sem necessariamente estar manipulada, hipnotizada ou enganada. É uma interpretação confortável porque desloca o problema para fora da política.

No fundo, o Brasil foi construindo uma sofisticada cultura de transferência permanente. A culpa circula. O desgaste é repartido. A responsabilidade evapora antes de encontrar endereço definitivo.

E talvez seja justamente aí que a metáfora do Raul ganhe outro sentido com o passar do tempo. A mosca continua pousando sobre a sopa. O que desapareceu foi a disposição de virar a mesa.

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