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Plantão de polícia

Poesia interrompida

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Era um plantão tranquilo, tanto é que a equipe decidiu dividir os policiais em turnos para o atendimento no balcão, que, àquela hora da madrugada, era nenhum. Tentei apaziguar o tédio com a leitura de poesias, mas o telefone tocou. Minha mente dizia que deveria ser alguém incomodado com o barulho provocado por um vizinho barulhento ou, então, querendo saber se um parente estaria preso. Estava errada.

— 34ª Delegacia de Polícia, agente Agatha Poirot, boa noite.

— Boa noite. Preciso informar um feminicídio.

Pois é, nada de vizinhos inconvenientes ou alguém que quisesse saber se o filho, o marido ou um primo estava atrás das grades. A comunicante, que se identificou como Luciana, 16 anos, disse que o autor havia fugido.

— Mas você presenciou o feminicídio?

— Não.

— Alguém viu?

— Não.

— E como você sabe que foi um feminicídio?

— A minha mãe está morta, e foi o meu pai que a esfaqueou.

Depois de pegar as informações necessárias, acordei a equipe e comuniquei o fato ao delegado Rupereta. Ele determinou que o agente Jean Paul e eu fôssemos até o local, um luxuoso condomínio. Ao chegarmos, fomos recebidos por Luciana, cuja expressão blasé me causou certo desconforto. No canto, um rapaz, sentado no meio-fio, chorava copiosamente. Alguns anos mais velho, soube que era o outro filho da vítima.

Luciana nos levou até o andar de cima, onde estava o corpo de Mirian 41 anos. Vestida com uma camisola, caso não fosse por um filete de sangue entre os seios, alguém poderia dizer que estivesse dormindo e, não duvido, sonhando com algum lugar tranquilo, um riacho, uma mata, cantos de passarinhos, talvez até com o Paraíso.

Jean Paul puxou o ar de modo que pude sentir que, de alguma forma, ele carregava resquício de culpa. Meu colega é um sujeito decente, não sabe exatamente o que nós mulheres sentimos, porém duvido que seria capaz de algo do tipo. Ele me olhou por alguns instantes, como se querendo dizer algo, depois baixou os olhos.

— Jean, o Dr. Rupereta pediu para um de nós levar a Luciana para ser ouvida. Melhor ir você, vou ficar aqui aguardando a perícia.

Os peritos chegaram após quase uma hora, momento em que desci e me dirigi à entrada da propriedade. Lá estava o filho de Mirian, encolhido, como se não acreditasse naquela situação. Quanto sofrimento.

Perto do amanhecer, os pais, a irmã e o irmão da vítima chegaram. Enquanto o senhor se mantinha firme, os três choraram abraçados ao rapaz, que continuava sentado no meio-fio ao lado do portão da mansão. O idoso, alto, esguio, bigode aparado, aparentava algo entre 75 e 80 anos. Ele se aproximou de mim.

— É difícil.

Com um gesto de cabeça, lábios apertados, concordei. Ele prosseguiu.

— E eu preciso me manter firme. Alguém precisa segurar o leme. Do contrário, minha família não passará por essa tempestade.

Luiz, esse era o nome daquele homem, ficou ali, de pé, ao meu lado, sentindo o desespero dos seus, sem poder demonstrar. O silêncio, aprendi naquele momento, pode ser mais doloroso do que qualquer som produzido por nossa garganta. Foi quando a viatura chegou, a porta do passageiro se abriu, Luciana desceu. Ela caminhou em minha direção, quando a tia foi ao seu encontro. A poucos passos, a adolescente desabou nos braços da parenta e urrou como um animal que acabara de perder tudo. Meus olhos se encheram de lágrimas, fui para o lado do muro e chorei.

Saí do plantão naquela manhã com parcela de dor daquela gente. Já no meu apartamento, entrei debaixo do chuveiro, como se desejasse que a água levasse embora toda aquela tragédia. Quando já era perto do meio-dia, Jean Paul me ligou.

— Você tá sabendo?

— O quê?

— O marido daquela mulher de hoje se matou.

— Não.

Nem tive curiosidade de saber como o cretino havia tirado a própria vida, o que não impediu que meu colega me revelasse.

— Agatha, você acredita que o cara estava na estrada e jogou o carro na frente de um caminhão? E o desgraçado, além de morrer, acabou matando o motorista do caminhão.

Por que essas coisas acontecem? Bem, creio que todos sabemos, mesmo que, não raro, prefiramos fingir. Isso ocorreu há tantos anos, mas ainda hoje o rosto daquela quase menina, antes gélido, depois puro vulcão, não me sai da mente. E a dúvida, a dúvida se aquele homem teve a sua hora de chorar.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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