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Casa de taipa velha

Moça da janela espiando peão

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Na casa de taipa velha
com janela de madeira,
tem uma greta fininha
onde o luar se insinua inteira.

Lá dentro a moça se esconde,
coração batendo em tropa,
espera o som do casco
que vem da festa que sobra.

O arrasta-pé terminou,
sanfona já foi calada,
mas o peão vem devagar
montado na égua malhada.

Ele traz viola no ombro,
chapéu torto de poeira,
cheiro de cachaça e suor
misturado com fogueira.

Ela aperta o lenço no peito,
respira fundo e treme,
pela fresta vê o vulto
e o mundo inteiro parece.

O cavalo passa devagar,
passo manso na estrada escura,
a lua pinta de prata
a silhueta da figura.

“Ô meu Deus, que homem bonito”,
ela pensa sem dizer nada,
os olhos grudados nele
como se fosse uma alma rezada.

Ele nem olha pro lado,
vai cantando baixinho um modão,
mas o vento leva a voz
direto pro coração dela então.

“Se eu tivesse coragem
saía na porta e chamava,
dizia: ‘Vem cá, peão,
que meu peito já não aguenta mais nada'”.

Mas fica quieta na greta,
só o olhar que acompanha,
o cavalo some na curva
e leva embora a canção.

Deixa ela ali sozinha
com o fogo que não se apaga,
sonhando com o dia
que ele pare na porteira e a chame.

Hoje é só espiada escondida,
coração em reza e segredo,
mas o amor da roça é assim:
nasce na greta, vira enredo.

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