Curta nossa página


Luciana

Veínha

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Começou com uma observação de uma amiga a um texto meu:

“Eu não estou velha, eu sempre fui.

E quem me irritar, eu cuspo, que é a única força que me sobrou, mesmo errando porque a vista, essa, ah, já foi boa, mas tá uma bosta.”

Então fui em frente.

Luciana nasceu velha, careca e sem dentes.

Com o tempo, cabelos e dentes apareceram e ela tornou-se uma menina linda, que se olhava no espelho e via uma criança veínha.

Aos 10 anos abriu um livro de arte dos pais e deparou-se com a reprodução de Ronda Noturna, obra-prima do pintor holandês Rembrandt. Seu olhar fixou-se na menina loura vestida de branco, à esquerda na tela, e percebeu a velhice estampada em seu rosto. “Igualzinha a mim”, pensou.

Não era, mas fazer o quê? A neurose tem razões que a própria razão desconhece.

Depois tornou-se uma adolescente veínha e namorou adoidado. Sobre cada um dos carinhas, disse para si mesma, “Esse garoto é tarado. Imagina, querer fazer sacanagem com uma veínha…”. Mas fez, e com muito gosto, que os hormônios na adolescência não pedem, mandam.

Luciana descobriu, encantada, que gostava do fuzuê. Mas não foi adiante, permaneceu uma virgem veínha.

Os anos passaram, ela foi uma universitária veinha, uma professora veínha, uma noiva veínha, uma esposa veínha, uma mãe veínha, uma divorciada veínha, uma viúva veínha, uma vó veínha. Nesse estágio, finalmente, passou a haver alguma harmonia entre a mulher de carne e osso e a imagem guardada em seu peito, que ela continuava a ver refletida no espelho.

Certa tarde, Luciana caminhava por um parque perto de sua casa – bem devagar, sentia-se fraca de marré, marré, marre – quando um veio se aproximou.

– Veia gostosa!

– Veio gaiteiro! Veio assanhado! Veio tarado! – E, baixando o nível – Veio fio da puta!

E apelou para sua arma secreta, uma cuspida nos cornos do assediador.

Mas errou feio o alvo, sua vista estava uma bosta e a pontaria nunca fora das melhores.

O velho assustou-se ao ver a saliva passar perto do rosto. Mas, impávido, foi em frente.

– Por que tudo isso, rainha? Trocar saliva é melhor que desperdiçá-la – e tacou um beijo na boca da veínha indignada.

Luciana resistiu, empurrou-o para longe, mas aos poucos foi achando gostoso… Começou a retribuir, a mesclar sua saliva com a dele, a entrelaçar sua língua na dele, gostava de beijar na boca desde que era uma adolescente veínha.

Uns 5 minutos depois pararam, ofegantes. Sorriram e se apresentaram. Ele se chamava Heitor, era jornalista aposentado e declarou, orgulhoso, que havia pendurado as chuteiras nas redações, mas não na cama, ainda gostava muito do vucovuco. Ela disse o seu nome, falou que era professora aposentada e confessou, com um sorrisinho malicioso, que também gostava, ficava toda molhadinha ao beijar na boca.

– Então vamos aproveitar o tempo que nos resta, minha rainha, minha veínha tesuda.

Ela concordou em silêncio.

Foram para um hotel próximo e transaram feito coelhos veínhos. Foi a primeira de muitas trepadas. E, milagre dos milagres, Luciana sente-se remoçar a cada dia.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.