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Juarez e Laura

Competição

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Juarez e Laura conheceram-se via Facebook e engataram um namoro a distância, a única alternativa para um paraense e uma paranaense, em especial nos maus e velhos tempos da pandemia e do isolamento forçado. A falta de contato físico não atrapalhava muito as respectivas libidos, mas a idade, sim: ambos estavam com 73 anos, e viam os fogos da paixão darem lugar a um calorzinho gostoso, mas que não chegava a abrasar corações e mentes e, muito menos, seus corpinhos flácidos. Mas foram levando, continuaram juntos, sem jamais se encontrar de verdade, mesmo depois de tudo voltar (mais ou menos) ao normal.

Só que o tempo, pantera impiedosa, foi detonando a cada vez mais frágil relação. Os netos perguntavam com um misto de curiosidade e divertimento, sobre o(a) namoradinho(a) do(a) veterano(a), e ouviam que estava tudo bem. Mas não estava, longe disso.

A verdade é que nenhum dos dois sentia mais prazer em fazer coisinhas online. Faziam, era o comportamento esperado, e até gostavam quando isso acontecia, mas não era mais uma prioridade. Tão melhor ouvir música, ou ler um livro, ou maratonar uma série no streaming, ou simplesmente jogar conversa fora com os amigos…

E então vieram as doenças, dele e dela. De um dia para outro, a conversa voltou a ser interessante e de troca de informações, como no início do amorzinho virtual. Na ocasião, falavam das respectivas bagagens erótico-amorosas, do que lhes dava tesão, do que gostavam de fazer na cama, coisas assim; agora, falavam de sintomas, do resultado de exames, do parecer dos médicos etc. Meio lúgubre, admitamos, mas capaz de arrancar a relação daquela modorra…

Um dia, Juarez ligou pra Laura e informou:

– Vou ao médico na próxima quarta-feira. Periga ele marcar minha cirurgia.

– Coincidência, também tenho consulta na quarta.

“Essa mocreia tá tentando competir comigo?”, pensou Juarez. Chegou a assustar-se com a agressividade que de repente veio à tona, tentou afastar o pensamento grosseiro e inoportuno, mas não adiantou, as palavras continuaram a ressoar em sua mente.

Em Curitiba, Laura pensou uma barbaridade semelhante:

“Esse veio tá querendo competir comigo! Percebi o tom de vitória em sua voz porque sua cirurgia provavelmente vai ser marcada antes da minha, e realizada antes”. Respirou fundo e disse baixinho, para si mesma, as palavras terríveis, irrevogáveis, que assinalaram o fim do arremedo de relação:

– Vai operar antes, tudo bem. Mas tenho certeza de que esse veio filho de uma égua, esse veio broxa, vai bater as botas muito antes de mim!

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