Curta nossa página


Fome

Leite que pinga no bolso dos políticos é o que falta à mesa dos pobres

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Acostumados a confundir o tigre de bengala com o Kid Bengala e, às vezes, um homem feito de pau com um homem de pau feito, os políticos de ocasião lembram cada vez mais os bezerros desmamados. Coitados! Quanto mais mamam, mais querem mamar. Na Câmara, no Senado ou adjacências, para eles pouco importa se as tetas da viúva estão secas ou doentes. De modo a esconder a metafórica voracidade pelo aleitamento, a preferência das excelências é pelo leite armazenado em caixinhas, sacolas de supermercados, malas sem rodinhas, em bancos do tipo Master e, quando necessário, em cuecas do tipo boxer.

Espertos como as ratazanas de esgoto, o que as excelências de plantão nunca fazem é chorar pelo leite derramado. Só fazem isso caso haja necessidade de se limpar o tampo do fogão antes da chegada da Polícia Federal. Para a turma da leiteria oficial em forma de maracutaia, meio copo de leite não basta. Sempre há a necessidade de uma vaca inteira. Conforme a literatura dos bezerros em idade adulta, principalmente aqueles de terceiro ou quinto mandato, o leite de caixinha faz mal. Não acreditem. Coisas de homens sem personalidade e que temem perder a teta macia da vaca mãe para as maquininhas inanimadas de sucção.

Seja pasteurizado ou cru, o leite de vaca honesta é um alimento rico em nutrientes e com proteínas importantes para a saúde, educação e segurança. Portanto, é falsa a afirmação de que o leite de caixinha contém substâncias tóxicas e só pode ser consumido pelos touros considerados indomáveis quando o assunto é dinheiro público. Eu nunca tive dúvida a respeito disso. É o tipo de leite que começa a ferver tão logo acaba a eleição. Seguindo o velho ditado de que quem não chora não mama, deputados e senadores só param de mamar depois de mortos. Alguns continuam mamando do além.

Resultado do suor do trabalhador, o leite que pinga diariamente no bolso dos políticos é o mesmo que falta à mesa de muitos brasileiros. Já o nosso leite de cada dia, aquele que foge às metáforas políticas e que a gente consome porque paga por ele, vem dos mamíferos ruminantes da família dos Bovídeos e nem sempre vai para o brejo como o que é manipulado pelos roedores. É por isso que o povo de bem sabe o valor que tem uma vaca. Sabe, mas permanece alimentando os bezerros. Um dia aparecerá alguém que, provavelmente do alto de uma montanha, mostrará aos desavisados e aos que se fazem de mortos que, assim como a tartaruga não sobe muro, a politicalha não dá leite, mas derruba o balde de quem tentar tirar o seu.

Eis a razão pela qual abomino todos os políticos que usam a política e os amigos banqueiros como meio de vida nababesca e impune. Respeitando as variadas marcas e as diferentes formas de apresentação, ainda hoje o leite que mais gosto é o da mulher. Antes de qualquer crítica feminista, esclareço que minha escolha é exclusivamente por conta da embalagem. Aliás, lembro de minha longa passagem pelo berçário da maternidade onde debutei para a vida. Deliberadamente longa porque, assim como resisti à chupeta, jamais me apeteceu a nobreza da bebida láctea em pó.

Não podia ver uma daquelas mães de leite que, como uma capivara encostada na cerca sem arame, pulava em suas tetas. Registro que minha preferência sempre foi sugar pelas esquerdas. Do mesmo modo que os políticos se lambuzam com o leitinho das crianças pobres até o último suspiro, eu só aboli a amamentação porque me faltaram os biscoitinhos de coco que mastigava enquanto me jactava do leite morno, perfumado e sem bactérias. Hoje, as bactérias são físicas, respiram, recebem votos, fazem promessas que nunca cumprem, viram ministros, juram honestidade e passam anos, às vezes décadas, enganando o povo. Por tudo isso, o Ministério da Saúde adverte: A falta de políticos honestos deprime o eleitor. Outubro vem aí.

…….

Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.