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Coerência tirânica

À direita ou à esquerda, quero ser livre para poder escrever o que penso

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

Democrata, libertário e tolerante por definição, sobretudo por convicção, defendo todas as formas de amor. Ainda que divirja, da mesma forma respeito qualquer religião diferente da minha e, se necessário, brigo para que a ideologia do vizinho seja aceita e respeitada. A recíproca nem sempre é verdadeira, mas o que fazer se boa parte dos brasileiros prefere a cizânia à paz. Reitero sempre que posso que minha simpatia política é pelo Brasil. Longe de ser hipócrita, obviamente que simpatizo com aqueles que verdadeiramente trabalham pela igualdade social, pelo crescimento e, principalmente, pelo reconhecimento externo do país.

E pouco importa que esse tipo de patriota esteja vinculado ao 13, ao 22 ao 171 ou a alguma outra numerologia partidária que fuja do espectro democrático. Desnecessário do ponto de vista pessoal, o preâmbulo talvez sirva como ratificação do que digo sempre a respeito de meus posicionamentos políticos. Avesso à politização da vida em sociedade, condeno veementemente os que costumam transformar eventuais adversários políticos e ideológicos em eternos inimigos pessoais. O maior indicativo de ignorância é usar as diferenças para condenar um semelhante à morte social.

Infelizmente virou moda confundir o público com o privado. Dependendo da forma como a expressão máxima da extrema-direita dormiu, expressar uma posição partidária pode ser um crime inafiançável. Me lembro bem que, durante a gestão daquele outro presidente, um deputado federal pelo Ceará foi expulso do PL a pedido do então chefe do Executivo. O parlamentar acabou defenestrado porque decidiu apoiar o candidato do PT à Prefeitura de Fortaleza. Em harmonia com alguns pares que pregam o retrocesso e o despotismo, o mandatário não fez mais do que manter a coerência tirânica. Ainda hoje, apoiar quem ele não quer ou não gosta é sinônimo de exclusão.

Curiosamente, o ex-presidente e seus bajuladores do Partido das Lágrimas são os mesmos que se apresentam como defensores da liberdade. Imaginem se eles fossem contra! Pensando exclusivamente no Brasil, repito que não visto a camisa de partido algum em eleição alguma. Na mesma proporção que não mato e não morro pela esquerda, não tenho, nunca tive e jamais terei ranços ideológicos que me permitam abominar a direita. Os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, aos quais servi ou acompanhei como profissional de imprensa, são a prova de que danço conforme a música.

Jornalisticamente, manifestamente atuo em desfavor de um ex-presidente que, mesmo em férias compulsórias até 2030, por meio de seus fanáticos seguidores, trabalha dia e noite contra o país que diz amar patriótica e profundamente. Pior do que isso é se achar proprietário da vontade e dos desejos da população, notadamente daquela que o repeliu em 2022. Como não acredito em quem se inspira na mentira para estimular incautos e ingênuos à maldade e ao golpismo, mantenho viva a proposta pessoal e intransferível de não admitir como sérias suas falsas verdades. Nada mais do que isso. Apesar do ceticismo, continuo sonhando com o dia em que, vencendo a direita ou ganhando a esquerda, permanecerei livre para pensar.

Entretanto, não deixo de achar que, estivesse ele realmente disposto a abraçar os princípios básicos da democracia, se manteria recolhido e, agindo dentro das quatro linhas, se limitaria a trabalhar politicamente para tentar mostrar que não é aquilo que boa parte do povo tem certeza de que ele é. A indicação de um dos varões para disputar a Presidência da República é justa. Muito justa. Veremos se é justíssima no dia do juízo final. Caso os votos lhe sejam novamente desfavoráveis, a torcida é para que o grupo que ainda lidera aceite com normalidade uma nova derrota. Minha sugestão é que aproveite a reclusão para refletir seriamente sobre essa possibilidade. Se for o vencedor, certamente a família receberá a faixa, o Palácio limpo e as contas devidamente pagas. O melhor de tudo é que ele estará livre. Quanto ao país…Liberdade é tudo o que mais quero.

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