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Corrida ao Buriti

Racha ‘do outro lado’ deixa Celina mais confortável

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Autor/Imagem:
Pimenta Filho - Foto de Arquivo

De olho em outubro mas longe dos holofotes e das declarações oficiais, cresce uma articulação silenciosa que pode definir o tabuleiro eleitoral de 2026 no Distrito Federal. O movimento tem endereço, objetivo e uma personagem central: a governadora Celina Leão (PP). A ordem que circula entre caciques partidários, empresários, operadores políticos e setores influentes da máquina pública é evitar a fragmentação da centro-direita e construir um grande bloco em torno da reeleição da atual ocupante do Palácio do Buriti.

O discurso público ainda é de cautela. Nos bastidores, porém, o raciocínio é muito mais duro. A avaliação predominante entre aliados do governo é a de que uma pulverização conservadora abriria espaço para uma esquerda hoje dividida, mas ainda competitiva eleitoralmente. Daí o esforço crescente para transformar Celina em candidatura de consenso, algo como um porto seguro institucional capaz de reunir desde liberais moderados até setores bolsonaristas pragmáticos.

Nesse desenho, algumas candidaturas começam a perder oxigênio antes mesmo da largada oficial. O ex-governador José Roberto Arruda (PSD) é um exemplo. Embora continue sendo uma peça imprevisível, ele tem densidade eleitoral, memória política e influência em setores populares. Mas interlocutores da direita avaliam que sua permanência no jogo majoritário produziria desgaste jurídico, insegurança partidária e um conflito interno de difícil administração. O recado que circula reservadamente é o de que Arruda ainda pode ser útil ao grupo político, mas não necessariamente como cabeça de chapa ao Buriti.

Já o advogado Kiko Caputo, filiado ao Partido Novo, também enfrenta resistência silenciosa. Embora seja visto como nome de perfil técnico e discurso liberal, lideranças conservadoras avaliam que lhe falta musculatura eleitoral para sustentar uma campanha competitiva contra uma máquina estatal consolidada. Em linguagem menos diplomática, alguns operadores resumem que “seria uma candidatura bonita no papel e frágil nas urnas”.

Já Paula Belmonte (PSDB) mantém capital político próprio e trânsito em nichos específicos do eleitorado conservador, especialmente entre segmentos religiosos e famílias de classe média. Ainda assim, interlocutores próximos acreditam que sua permanência numa disputa majoritária poderia dividir votos preciosos num cenário apertado. O objetivo do núcleo celinista seria atraí-la para uma composição politicamente confortável, preservando espaço e protagonismo.

Enquanto isso, a esquerda parece caminhar para um duelo interno que interessa diretamente ao campo governista. De um lado, Leandro Grass (PT) tenta consolidar-se como herdeiro natural do eleitorado progressista vinculado ao presidente Lula. De outro, Ricardo Cappelli (PSB) tenta avançar com discurso de gestor técnico e articulador nacional.

A coexistência das duas pré-candidaturas já provoca desconforto entre petistas e socialistas. Há temor de que a disputa por protagonismo desgaste o campo progressista antes mesmo da campanha começar. Integrantes do PT acusam Cappelli de tentar ocupar um espaço que historicamente pertence ao partido. Por sua vez, aliados do PSB sustentam que Grass teria dificuldades para romper barreiras fora da militância tradicional.

No entorno de Celina, a leitura é pragmática, indicando que quanto maior a divisão da esquerda e menor a fragmentação da direita, maiores as chances de uma vitória ainda no primeiro turno.

Por trás desse movimento existe também um componente administrativo. Apesar de críticas em áreas sensíveis como saúde, mobilidade e segurança, o atual grupo governista mantém forte capilaridade política nas regiões administrativas, apoio expressivo na Câmara Legislativa e presença consolidada em estruturas estratégicas do DF. É um ativo que adversários reconhecem, ainda que reservadamente.

Outro fator pesa no cálculo eleitoral: o eleitor brasiliense demonstra crescente fadiga com guerras ideológicas permanentes. Parte relevante do centro político começa a enxergar na estabilidade administrativa um valor eleitoral mais forte do que aventuras partidárias ou candidaturas de afirmação pessoal.

Por isso, os encontros reservados se multiplicam. Conversas em restaurantes discretos, escritórios de advocacia, apartamentos funcionais e gabinetes climatizados já trabalham um roteiro claro para 2026: transformar Celina Leão no eixo de convergência de uma ampla frente conservadora, neutralizar candidaturas paralelas e deixar que a esquerda consuma energia em disputas internas. Há quem já resuma o cenário com ironia cruel: a eleição ainda nem começou oficialmente, mas muitos pré-candidatos descobriram que o maior adversário não está do outro lado ideológico, mas sentado à mesma mesa de negociação.

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