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Valdir, o resiliente

O torcedor que encurralou Deus

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Valdir imaginou que descia a Serra de Petrópolis, tamanho o nevoeiro que tomava conta da estrada. Todavia, caminhava, como se alheio aos perigos que, porventura, estivesse à espreita. O temor não o acompanhava, apesar de nunca ter sido corajoso. De repente, olhos arregalados, estacou ao ouvir uma voz grave.

— Alto lá, meu amigo!

Tentou encontrar o dono daquele som, entre barítono e baixo. Tentou afastar a névoa com as mãos. A mesma voz prosseguiu.

— Alto lá, Valdir!

— Quem é? Eu te conheço?

Antes que pudesse ouvir a resposta, a neblina baixou, quando surgiu um homem parrudo, calvo, barba arredonda.

— Sou Pedro.

— Pedro?

— Sim, já fui chamado de Simão.

— Tu tá querendo me dizer que tu é São Pedro?

— Sim, Valdir.

Foi aí que ele percebeu que aquele homem carregava em uma das mãos uma enorme chave.

— Se tu é mesmo São Pedro, por favor, vá chamar Deus.

— Deus?

— Sim, isso mesmo. Ou será que ele anda ocupado demais para receber um dos seus filhos?

São Pedro coçou o queixo, mediu aquele sujeito petulante de cima a baixo.

— Agora não dá.

— Como é que é, meu brother? Agora não dá?

— Agora não dá!

— Eu sabia!

— Sabia o quê?

— Essa conversa de onipresente é conversa fiada.

— Dobre essa língua pra falar de Deus!

— Hum! Aqui vocês também têm Congresso Nacional, ou melhor, Celestial? E, pelo visto, não deve ser fácil negociar com os deputados e senadores.

— É óbvio que não!

— Hum… Quer dizer, então, que Deus é o mandachuva por aqui?

— Daqui e de todo o universo.

— Então, por obséquio, quero ter um dedo de prosa com Ele. Pode ser ou tá difícil?

— Ah, Valdir, entre e se acomode naquela cadeira ali.

Valdir olhou para trás e, mesmo desconfiado, entrou no Reino dos Céus e se sentou na cadeira indicada por São Pedro.

— Ele vai demorar?

— Ele quem?

— Ué, Deus!

Sem alternativa e com ânimo de encher o fanfarrão de sopapos, São Pedro ouviu uma voz ainda mais grave do que a sua:

— Calma, Pedro, olha o coração.

Era Deus, que se aproximava a passos largos. Em seguida, a Divindade se postou diante do Valdir, que logo o reconheceu.

— Tu é Deus, né!?

— Sim, meu filho. O que você deseja saber?

— Ué, Tu não é onisciente?

— Me pegou! Pois bem, sou, mas de vez em quando gosto que meus filhos me surpreendam.

Valdir observou as expressões de Deus, talvez tentando encontrar um vacilo. Nada. Deus parecia sincero.

— Vejo que você teve uma vida dura lá embaixo. Sei que, de vez em quando, perco a mão e permito que alguns dos meus filhos sofram além da conta. Você nasceu em Caxias, terra de Gonçalves Dias, foi entregue pelas mãos de sua mãe a uma tia, que o levou de navio para o Rio de Janeiro. Cresceu longe dos seus, chorava todas as noites, até que a dor passou a ser a sua melhor companhia. Casou, teve um filho, depois sua mãe ficou doente, o que a consciência o obrigou a fazer a viagem de volta para sua terra natal. Enquanto cuidava de sua mãe, soube que sua esposa o traiu com outro homem. Abandonado, acabou se envolvendo com uma moça, com quem teve um filho, mas que só assumiu depois de mais de 40 anos. Também conheceu outra mulher em Caxias, com quem se casou, teve três filhos, enfrentou a pobreza com dignidade, foi para Brasília tentar a sorte. Teve o azar de ter câncer por duas vezes. Arrancou da própria carne, passou por tratamentos que o enfraqueceram. Resiliente, a dor continuou ao seu lado, até que ontem respirou pela última vez. Longe da família, a dor finalmente o deixou em paz. E agora está aqui comigo, meu filho.

Valdir escutou o resumo de sua existência na Terra, mas algo o incomodava. Deus percebeu o olhar distante do sujeito e, então, tocou-lhe o ombro.

— O que foi, meu filho?

— E o Vasco?

— O Vasco?

— É, Deus, e o Vasco?

— Bem, Valdir, o Vasco continua lá em São Januário.

— Hum! Mas estamos sem o Roberto há um tempinho.

— O Dinamite?

— E tem outro?

— Não. Você tem razão. Até tentei fazer outro, mas perdi a forma. Deve estar embaixo daquela pilha ali de pernas de pau. Uma hora acho!

— Tu é Vasco, Deus?

— Bem, você sabe, né? Não posso falar assim de bate-pronto…

— Num acredito nisso, Deus!

— Não acredita no quê, meu filho?

— Tu vai ficar mesmo no muro? Pois diga logo que é Botafogo, Flamengo, Fluminense, Palmeiras ou Corinthians.

— Olha, Valdir, até que criei um tal Anjo das Pernas Tortas aí, que era a Alegria do Povo… Bem, confesso que fiquei tentado a ser torcedor do Botafogo, mas não sucumbi.

— Tu é Vasco?

— Sim. Bem, quer dizer…

Valdir, quase se decepcionando com Deus, segurou o choro, quando Ele, com aquele vozeirão emprestado do Cauby Peixoto, protestou.

— Vasco, não! Vascão!!!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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