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MAIS UM TORRESMO

PARTE 3 — A CASA TOMADA

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Com a convivência, ia ficando tudo melhor: o amor de Verônica, a amizade sincera e verdadeira de Telê, a quem considerava meu pai. Menos dona Helade. Essa, apesar de me receber em sua casa e preparar a comida junto da filha, nunca tinha uma palavra boa a dizer. Ficava entre a crítica gratuita e as reclamações.

À medida que frequentava a casinha do Méier, mais conhecia a rotina da família, até que, um dia, dona Helade resolveu reclamar de mim também.

“Você não tem família? Vem aqui todo sábado, todo domingo…”

“Vai ficar sempre no mesmo emprego, não tem ambição?”

“O tempo vai passando, e não perdoa. Verônica é bonitinha, mas não vai ficar sempre assim.”

Esse vaticínio quase me embrulhou o estômago, depois de eu haver comido bacalhau e bebido vinho num domingo de Páscoa.

Era quase uma maldição. Fiquei a imaginar se Verônica, um dia, se transformaria em uma criatura como sua mãe.

Especialmente porque, além da feiura externa e interna, percebi, com o tempo, que no quesito higiene a sogra também deixava a desejar. Não tinha muito cuidado com o asseio pessoal. Ao menos, na cozinha, Verônica, perfeita em tudo, se preocupava com esse aspecto. E como tinha o pescoço cheiroso a minha morena.

A rotina de trabalho seguia praticamente igual. Até que, um dia, fui promovido a chefe do meu departamento. A aposentadoria do mais velho no setor propiciou isso.

Houve um aumento considerável no meu ordenado e, um dia, procurei Telê depois do expediente para contar-lhe dos planos que vinha fazendo:

“Verônica não me escapa. E nem você. Vai ter que ser meu sogro mesmo, não tem jeito. Vou comprar as alianças.”

O velhote até chorou de alegria, me abraçou e disse:

“Vamos tomar uma gelada pra comemorar. Mas, ó, nada de noivado eterno não, hein. Isso aqui não é bagunça não.”

Partimos.

Pedido de casamento aceito, festinha de noivado, finalmente minha mãe e as poucas pessoas de minha família ficaram conhecendo melhor Verônica e seus pais.

Na reunião familiar em que já apontávamos uma data provável para o casamento, uma pérola solta pela minha sogra, dirigida à minha mãe:

“Espero não me arrepender de estar entregando minha filha.”

Minha mãe, advertida do perfil de dona Helade, nem levou a grosseria em consideração.

O casamento se deu na Basílica do Méier, num lindo dia de maio de 1970. Muitos amigos e familiares reunidos. Nunca tinha visto Verônica tão linda, e o amor só aumentava.

Aluguei uma casa a dois quarteirões da dos meus sogros, com quintal e jardim. Comprei em prestações um Fusca zero quilômetro, branco, e foi ele que nos conduziu para a lua de mel em Caxambu. Passamos os sete dias mais deliciosos de nossa história por lá. Nunca vou me esquecer. E sempre fiz um esforço para não esquecer, para ter o perfume e a música daqueles dias sempre presentes na minha mente.

Com minha promoção na fábrica, o trabalho aumentou, mas sempre procurei manter minha rotina e proximidade com os verdadeiros amigos que fiz desde que entrara lá. E com Telê, agora oficialmente meu sogro, não fora diferente.

No início de nosso casamento, já integrados à rotina da nova casa, Verônica e eu vivíamos um para o outro, mas eram sagrados os encontros de quarta e sexta-feira com os veteranos.

Até que, um dia, cheguei do trabalho e não encontrei Verônica. Um bilhete sobre a cômoda avisava:

“Estou na casa da mamãe, ela precisou de mim.”

Fui até lá e descobri que dona Helade havia passado mal. Pressão alta, atacada de reumatismo. A velha estava quase desfalecida sobre uma poltrona quando lá cheguei. Telê não estava, e Verônica preocupava-se.

Logo em seguida ele chegou. Bêbado, transtornado. De uma forma que jamais vira.

Bebíamos bem, entornávamos boas garrafas de Brahma gelada, mas ele sempre se mantinha sóbrio e na linha. “Isso aqui não é bagunça não”, era seu lema.

Mas, nesse dia, estava completamente diferente. E o hálito não indicava exagero na cerveja, mas em bebidas mais fortes. Achei esquisito, porém, até por respeito, não comentei nada nos dias que se seguiram.

Na manhã seguinte, conversando com Verônica, soube que sua mãe se queixara de solidão, de estar abandonada pela filha, e que a ruptura havia sido muito drástica. Embora agora fosse a hora de vivermos um para o outro, assenti em, algumas noites na semana, ir jantar na casa de meus sogros. Afinal, a companhia de Telê sempre me fora agradável, e a comida era boa. Fora isso, faria de tudo para agradar minha Verônica, que todos os dias se mostrava uma excelente companheira.

Quando dei por mim, meu destino após o trabalho na fábrica era sempre a casa dos meus sogros. Só que a companhia de Telê começou a ficar rara, e eu cumpria a rotina de jantar com Verônica e dona Helade e, depois, sentar-me no sofá, olhando vagamente para a televisão, enquanto Verônica arrumava a cozinha e dona Helade, sentada numa cadeira próxima, se queixava do marido.

Telê bebia cada vez mais e parava em casa cada vez menos. Não o estava reconhecendo.

Ele estava próximo da aposentadoria quando, numa dessas bebedeiras, sofreu um pequeno acidente na rua. Saía do ônibus que o levava para casa e, ao descer o último degrau, pisou de mau jeito e afundou o pé entre o coletivo e o meio-fio.

Fratura no osso do tornozelo.

Ferida insistente, diabete grave descoberta. Mas Telê continuava bebendo, exageradamente. Continuava comendo seu torresmo bem gordo.

“A pururuca tem que estourar, bacana, senão não serve.”

E, aos poucos, ele foi virando uma sombra remota do que havia sido. O homem divertido e sagaz que conheci e por quem nutria verdadeiro sentimento de filho foi se apagando aos poucos. A bebida piorou sua saúde, o cigarro aumentava, o torresmo… O torresmo.

Esperava em meu íntimo que, com os netos que estávamos tentando trazer ao mundo, Telê se animasse, mudasse o comportamento, e até o gênio complicado de dona Helade se amenizasse.

Não ocorreu uma coisa nem outra. Os netos não vinham, a velha ficava amarga e pior a cada dia, e Telê, doente.

Gangrena, amputação da perna onde houvera a fratura, invalidez permanente… Em três meses após uma internação hospitalar, o velho Telê, o querido Telê, virou retrato de louça no cemitério do Caju.

“Telésforo Simões Lessa
1911-1971
Pranteado marido e pai.
Orai por ele.”

Morreu sereninho, num domingo à tarde, em casa. Fazia calor, os pássaros, indiferentes, cantavam em revoada lá fora. Nem um ai. Eu mesmo barbeei e vesti o cadáver, com o mesmo terno cinza que ele havia usado no meu casamento. Estava pele e osso, com feições irreconhecíveis. Parecia ter 20, 30 anos mais.

………
(…) leia amanhã, no Café Literário, o último capítulo de “Mais um torresmo”.

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