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Falha técnica

Kássio ‘esquece’ o passado e promete defender uma democracia plena

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Misael Igreja - Foto Marcelo Camargo

Ao contrário do que imaginam 11 entre dez bolsonaristas, nada tem a ver com a liturgia do cargo a defesa que o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Nunes Marques, fez da urna eletrônica em seu discurso de início de mandato à frente da Justiça Eleitoral. Entretanto, para 99,9% dos brasileiros que pensam sem fanatismo ou mania de perseguição, Marques se redimiu da falha técnica que foi convidar para a cerimônia pública de posse o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ainda que seja uma exigência do Cerimonial da Casa ou da República, convenhamos que esse tipo oficial de convite lembra uma lavagem com detergente Ypê na cabeça dos que nunca desacreditaram da maquininha de votar. Jair Bolsonaro não só desqualificou a urna. Ele tentou jogar lama endurecida no que a maioria do eleitorado entende com uma das maiores “invenções” tupiniquins destas três últimas décadas. Obviamente que a minoria faz parte do triste legado deixado pelo bolsonarismo.

Ao afirmar que o sistema eletrônico de votação do país constitui patrimônio institucional de nossa democracia, o ministro Nunes Marques tirou das costas o peso da pecha de bolsonarista, ao mesmo tempo em que provavelmente “descobriu” que seu novo compromisso é com a sociedade brasileira e não com quem o indicou para uma das cadeiras do Supremo Tribunal Federal, indicação que lhe rendeu a honrosa e cobiçada função de presidente do TSE.

Mais do que isso, Marques deve ter repensado o que eventualmente disse nos bastidores para seu “descobridor” e, durante a posse, se libertou das amarras consciente de que, baseado nas recentes, mas históricas críticas de Jair Bolsonaro às urnas, não pode destruir o futuro por problemas do passado. Como diz o pensador, ninguém navegará em paz pela vida se continuar ancorado em recordações de um barco que já zarpou. A linha temporal da vida pública tem um único sentido: para a frente.

Certo de que o futuro não nasce se o passado não morrer, Nunes Marques foi além do que a população queria ouvir de um magistrado que terá sobre os ombros o peso de conduzir uma eleição presidencial polarizada e ainda com resquícios de um fracassado golpismo. Quando escreveu e depois leu a frase mais emblemática do seu discurso, o ministro não estava apenas jogando para a seleta plateia convidada para assisti-lo recebendo o bastão da ministra Carmen Lúcia Antunes Rocha.

Na minha impulsiva imprudência, ouso afirmar que a expressão “O destino da democracia brasileira continuará a ser escrito pela vontade livre e soberana do povo” foi um libelo àqueles que um dia tentaram tirar do povo o poder de escolher alguém de sua preferência para a Presidência da República. Tentaram e não conseguiram, porque a democracia é primazia do povo. Para alguns próceres do bolsonarismo presentes à posse de Marques, a expectativa é a de que o TSE seja mais isento do que foi em 2022.

Desde que com honestidade, cada um tem o direito de pensar o que bem entender. Em 2022, o TSE só não foi isento porque Jair Bolsonaro perdeu a eleição para Lula. A secular isenção da Justiça Eleitoral seguramente será novamente questionada caso um outro Bolsonaro perca em outubro próximo para o mesmo Luiz Inácio o principal assento da política brasileira. Resumindo a ópera, o TSE se limita a somar e a divulgar os votos dados. Os imaginados ou sonhados ficam armazenados nas cabeças ocas dos que nunca se convencem de que, mais triste do que mudar de ideia, é não ter ideias para mudar.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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