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Batom na cueca

Detergente e perseguição não salvarão os ‘patriotas’

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Se defender atacando nem sempre é a melhor estratégia para quem já está com mais de meio corpo atolado na areia movediça. Para esses, qualquer movimento em falso acaba afundando de vez até a alma. É o caso do candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que pediu R$ 134 milhões para produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro e do probo e íntegro senador Ciro Nogueira (PP-PI). De parlamentar acima de qualquer suspeita do governo de Bolsonaro à beira do abismo político no Lula 3, Ciro deu um pulo de pouco menos de sete ou oito anos.

No contexto político brasileiro recente, especialmente entre 2024 e 2006, diversos políticos, principalmente aliados, seguidores e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, se utilizaram – e se utilizam – da narrativa de “perseguição política” em resposta a investigações da Polícia federal e do Supremo Tribunal Federal ou de sites confiáveis. Portanto, Flávio e Ciro não serão os primeiros e nem os últimos a tentar sair do foco policial afirmando que tem sido alvo de decisões consideradas arbitrárias e desproporcionais por parte desse ou daquele ministro.

O problema é que, como já disse, o financiamento de “Dark Horse”, filme biográfico sobre o mito e a mesada de Daniel Vorcaro configuram batom vermelho na cueca branca. Entre os aliados do antecessor de Lula da Silva, o maior frequentador da berlinda bolsonarista é o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator da ação que condenou centenas de golpistas à prisão e responsável pela suspensão temporária da Lei da Dosimetria. Para alguns dos detratores de Moraes, ele persegue opositores políticos e é um dos principais pilares da ditadura judiciária.

No caso do fracassado golpe, nunca houve e não há perseguição alguma, mas sim uma avalanche de ações contra os antidemocratas. Trata-se de uma clara e irrefutável inversão de valores as declarações de investigados se colocando como vítimas. A cúpula e os agentes da Polícia Federal não são pagos para perseguir qualquer cidadão brasileiro, particularmente os políticos, independentemente de que eles sejam de oposição ao Governo Central. Para se defender, Ciro Nogueira nega que tenha recebido valores ilícitos do Banco Master e ironiza o fato de as investigações terem começado justamente contra um líder oposicionista.

Começando pela liderança, vale ressaltar que, com dificuldades para se reeleger, o ainda senador chegou a pedir pessoalmente apoio do ex-amigo Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, é oposição, mas nem tanto. Ele contesta o pedido a Lula e desmentirá até a morte os benefícios do Banco Master. Entretanto, os fatos apurados à exaustão pela Polícia Federal derrubam todos os argumentos apresentados pelo parlamentar piauiense a seus pares do bolsonarismo. O senador Flávio Bolsonaro também negará até a próxima eleição a publicação do The Intercept Brasil.

A menos que o país esteja realmente de ponta cabeça, o Intercept não criou o áudio de Flávio e a PF não inventou que Ciro, além da mesada que variava de R$ 300 mil a R$ 500 mil mensais e de um cartão de crédito de Vorcaro para uso pessoal, viajava, se hospedava em hotéis de luxo e frequentava restaurantes de luxo custeados pelo Master. Com todo respeito aos mais crédulos, mas, mesmo com a fartura de informações nos arquivos da PF, continuar acreditando na fantasia de perseguição política é o mesmo que rezar para pneus e beber detergente para mostrar que é mais patriota do que os patriotas. Nada disso os salvará. Não sei se para lamentar ou comemorar, mas ainda hoje abrirei um espumante da Ypê.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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