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Cirurgia

Os visitantes

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Pois é, sofri uma intervenção cirúrgica. Correu tudo bem, não foi dessa vez (tanto que estou traçando estas maltraçadas, dã). O importante foi que passei por algumas experiências inusitadas.

A cirurgia foi excelente, não senti pissirongas. Nem durante (estava dopado na última, dã de novo), nem depois, a anestesia era da melhor qualidade.

Depois, na UTI, perguntaram-me se sentia dor; respondi, falando a verdade, que ainda não, mas que provavelmente sentiria mais tarde. Pergunta retórica, resposta desnecessária: a equipe médica já estava com uma bomba nas mãos, para acalentar os sonhos e outras reações fisiológicas de meu frágil corpinho.

O remédio atende por Tramal ou Tramadol, é só chamar, que ele vem e se enrosca nas pernas da gente. Juro, não estou fazendo propaganda de drogas, apenas relatando um acontecido. Na verdade, não tenho muita experiência com as supracitadas – exceto uns baseados quando jovem, no colegial e na faculdade, mas quem nunca? –, mas deve ser um tarja-preta, mais fraco que alguns, como a morfina e a maioria dos opioides sintéticos; mais potente que vários outros.

Seja como for, ajudou-me a alucinar adoidado. E, sobretudo, abriu as portas para os Visitantes.

A esmagadora maioria destes tinha forma humana, embora, em alguns casos, não passassem de esboços mal executados, quase rascunhos. Chegavam em massa e passavam por mim com um passo apressado, seguindo não sei para aonde. Alguns olhavam-me e sorriam, outros não. Poucos dirigiam-me a palavra; em geral, não sei se respondia, e o quê.

Em meio a essa leva havia também alguns rostos, apenas rostos flutuantes, mostrados/existentes em duas dimensões, como numa carta preto e branco. Rostos de expressões entre assustadas e rancorosas, que deslizavam a meu redor olhando-me dissimulados, como se estivessem cheios de vergonha. Pensei em chamá-los de Os Fantasmas, acabei optando, nem sei bem por quê, por Os Tristes.

Por algum motivo, nem os tristes, nem os visitantes do tipo mais numeroso causaram-me o menor temor, sequer um certo receio sofisticado e socialmente aceitável. Estava consciente de que sonhava; mais ainda, estava consciente de que que compartilhávamos, eles e eu, o mesmo universo (ou dimensões distintas do mesmo multiverso, vai saber); mas não houve, que eu lembre, manifestações de agressividade ou de (muita) confraternização.

No entanto, percebi ou soube que, que, juntamente com os humanos, os tristes e os visitantes, havia diversos outros seres, malignos e terríveis., que não deveriam ser descritos, muito menos nomeados (is fois grabdes pecados do escritor norte-americano Howard P. Lovecraft). Sua presença me faria gelar de medo, no mínimo transformando deliciosas alucinações em pesadelos dilacerantes. Por sorte, não se interessaram por mim e permaneceram distantes, talvez caçando em outras dimensões.

Durante cinco dias, de 8 a 12 de maio, convivi com os visitantes, à razão de duas cápsulas de Tramal diárias, uma de manhã, outra à noite. Foi basicamente uma coexistência pacífica e, de minha parte, passiva, em que que eu simplesmente os via passar. Embora, em alguns casos, houvesse mais. Bem mais.

Neste dia 12, tive alta do hospital, tomei apenas a bomba matutina e, quando adormecer, não sei se receberei alguns visitantes e quais deles. De todo modo, espero que apenas os mais amistosos venham.

Depois eu conto.

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