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Vorcaro & Cia

Brasil entra no Clube dos 100 Milhões pela porta errada

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Houve um tempo em que o poder brasileiro parecia mais simples. Havia lobby, influência, favores, operadores, empresários circulando pelos corredores da República e algumas histórias que terminavam em restaurantes discretos, apartamentos funcionais ou malas suficientemente cinematográficas para produzir indignação nacional. O país evoluiu. Ou pelo menos sofisticou seus hábitos.

Daniel Vorcaro talvez tenha produzido uma das maiores inflações já registradas no mercado brasileiro de prestígio, influência e circulação institucional. A antiga República dos milhões parece quase nostálgica perto do padrão atual. Cem milhões virou uma espécie de unidade mínima de convivência social das elites do poder.

O Brasil entrou oficialmente na era do Clube dos 100 Milhões.

Todo clube tradicional possui categorias internas. Existem sócios-fundadores, remidos, beneméritos, honorários e convidados eventuais. A elite nacional resolveu adaptar o modelo. Só que, por aqui, a piscina aquecida da influência parece funcionar em regime premium e o valor das mensalidades subiu de maneira quase ofensiva ao bom senso médio nacional.

Os números impressionam mais do que as versões apresentadas para explicá-los.

A contratação da esposa de Alexandre de Moraes por algo em torno de R$ 129 milhões acabou funcionando quase como uma cerimônia involuntária de inauguração simbólica do novo padrão republicano. PH Costa aparece orbitando operações que envolveriam aproximadamente R$ 146 milhões em imóveis. Flávio Bolsonaro, mesmo chegando depois ao salão principal, ainda encontrou espaço para buscar algo próximo de R$ 124 milhões destinados ao filme sobre a trajetória política do pai.

O mais curioso talvez nem sejam os valores individualmente considerados. É a naturalidade estética com que cifras monumentais passaram a circular nos ambientes político, empresarial, financeiro e institucional brasileiros.

Houve época em que milhões causavam constrangimento.

Hoje parecem funcionar como taxa mínima de entrada no lounge da alta influência nacional.

E o país possui um talento raro para transformar o absurdo em hábito social elegante. O poder já não frequenta apenas gabinetes ou plenários. Circula entre jantares reservados, resorts discretos, adegas de Macallan, campanhas digitais milionárias, fundos, ativos, relações institucionais e ambientes onde Faria Lima e República passaram a conviver quase como vizinhos de condomínio de luxo.

Talvez essa seja a principal mudança silenciosa do nosso tempo. Antigamente havia certa divisão estética entre o mundo da política e o mundo do mercado. Hoje os ambientes parecem cada vez mais integrados, sofisticados e mutuamente dependentes. O prestígio institucional passou a frequentar naturalmente o universo financeiro, enquanto o capital descobriu que influência política também pode funcionar como ativo estratégico de altíssimo valor agregado.

O mais impressionante talvez seja perceber que o país já não reage aos números. Reage apenas às disputas entre os grupos que orbitam esses números.

As cifras perderam capacidade de produzir choque moral.

Talvez porque o Brasil tenha se acostumado lentamente à ideia de que o poder custa caro. Muito caro. Tão caro que o cidadão comum já não consegue distinguir exatamente onde termina relação institucional legítima, proximidade política natural, trânsito empresarial aceitável ou ambientes excessivamente promíscuos.

Tudo parece viver mergulhado numa espécie de névoa confortável de sofisticação financeira.

O próprio conceito de influência mudou. Antigamente bastava acesso político. Hoje a engrenagem parece exigir presença simultânea em ambientes financeiros, digitais, empresariais, jurídicos, regulatórios e narrativos. Até a velha guerrilha política ganhou roupagem corporativa. O suposto financiamento de estruturas digitais destinadas a desgastar o Banco Central mostrou que a disputa por poder também entrou definitivamente na era das campanhas coordenadas de pressão institucional em larga escala.

Vorcaro talvez tenha entendido antes dos outros que o poder contemporâneo brasileiro já não opera mais no varejo da influência. O país profissionalizou tanto suas relações de prestígio que a velha lógica do operador clássico parece quase romântica diante do ambiente atual.

Hoje o poder circula entre taças, fundos, conexões, ativos, jantares, algoritmos, relações institucionais e cifras que perderam completamente qualquer relação com a vida real da maioria da população.

Talvez o Clube dos 100 Milhões seja apenas isso: o retrato de um país que inflacionou tanto o valor da influência que cem milhões já não parecem mais um escândalo. Parecem apenas o preço de entrada para sentar à mesa certa.

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