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Cadu, o tradutor

Prazeres e agruras de uma abordagem naïve

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Às vezes, a ignorância compensa. Conversava com um amigo, e contei-lhe que havia transposto para o português o poema La légende de la nonne, do compositor francês Georges Brassens. Meu amigo, que conhece literatura (não conheço, juro por minha mãe mortinha, toco de ouvido), indagou-me, “Não é de Victor Hugo?”

Guglei, claro que era. Nova guglada, agora com a pesquisa “La légende de la nonne, tradução de”, e descobri que não há registros de traduções literárias da coisa para a última flor do Lácio, apenas traduções verso a verso, ao pé da letra.

Tremi nas bases. Euzinho, tradutor de Victor Hugo? Georges Brassens tudo bem, já era ousadia, mas dava pra encarar. Porém o autor de Os miseráveis? Heresia!!!

Não ia deletar meu texto, então o reli com olhos críticos. Não o achei de todo mal; na verdade, o considerei bem razoável. Há senões que fariam tremer de furor um crítico literário, tais como desvios da metrificação original e alterações no sagrado e imutável refrão, mas, porra, eu estava traduzindo Brassens, não Hugo!

Como dizia, uma abordagem naïve, ingênua, tem seus percalços, mas também suas compensações. Corajosa ou temerariamente, apresento aos messiedame A lenda da freira, tradução de Cadu Matos, quase 200 anos depois de o poema francês ter sido produzido por Victor Hugo.

A lenda da freira

Venham todas, os olhos brilhantes,
Ouvir uma história de amor.
Um amor como não se viu antes,
Todo feito de sangue e de dor.
Essa história acaba em desgraça,
Por isso lhes dou um conselho,
Crianças, há touros na praça,
Escondam os aventais vermelhos.

Há moças lindas em Granada,
Cortejadas com todo ardor.
Mas a rainha das serenatas
Era dueña Maria del Flor
Era tão bela que as outras donzelas
De raiva quebravam os espelhos
Crianças, há touros na praça,
Escondam os aventais vermelhos.

Mas a bela, certo dia,
Um amor sublime encontrou.
Envolta em melancolia
Uma noiva de Deus se tornou.
Desesperados, os caballeros
Cantaram tristes madrigais.
Crianças, há touros na praça,
Escondam os rubros aventais.

A freirinha abriu um sorriso,
Cuidar dos pobres me faz
Bem digna do paraíso,
Eu entro e não saio mais.
Que os flertes com os caballeros
São pecados veniais
Crianças, há touros na praça,
Escondam os rubros aventais.

Pouco depois do acontecido,
Um oponente Deus ganhou.
Foi quando um terrível bandido
Da freirinha se aproximou,
Superando em ousadia
Todos os caballeros rivais.
Crianças, há touros na praça,
Escondam os rubros aventais.

Ele era feio, traços austeros,
E um porte nada elegante.
Mas o amor tem lá seus mistérios
E a freira amou o assaltante.
E saíram os dois pela estrada,
Roubando e matando os passantes.
Crianças, há touros na praça,
Escondam os aventais vibrantes.

Então Deus, enfurecido,
Aos dois amantes castigou.
E à noite, um raio, ao bandido
E à freira então fulminou
O Senhor quis que essa dupla voraz
Pagasse tudo, por inteiro,
Onde se paga o que se faz,
Atiça os fogos, carniceiro.

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