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O professor de literatura

A segunda proposta

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Romualdo, professor de literatura, ministrava aulas para turmas do Ensino Fundamental e, vez ou outra, para algumas do Ensino Médio. De tão bom profissional, foi sondado para trabalhar em uma faculdade. No entanto, ele precisaria ter no mínimo uma pós-graduação. Que azar! Tão próximo e, ao mesmo tempo, algo impossível.

— Calma, meu amor, que pra tudo se dá um jeito.

— Ah, mas neste caso não tem jeito, Lindaura.

Lindaura era a mulher que Romualdo acabara de conhecer em um churrasco na casa de amigos. Mal trocaram palavras, não precisou, a atração foi poderosa o suficiente para transportá-los para um local, digamos, mais reservado.

— Hum… Quando você precisa se apresentar na faculdade?

— No começo do próximo ano.

— Daqui a oito meses?

— Dez. As aulas só começarão em março.

— Ah, meu amor, dá tempo.

— O problema é que não tenho grana pra bancar uma pós agora.

— Hum! Essa é a parte mais fácil.

— Não entendi.

— Peça um empréstimo.

— E você acha que é fácil assim?

— Claro que é! Olha, você vai dizer que é professor universitário e…

— Mas eu não sou!

— Calma, Romualdo, me deixe explicar.

— Ok, desculpe.

— Pois bem, você vai ao banco, vai dizer que é professor universitário, vai mostrar o convite que recebeu. Então, vai pedir um empréstimo para pagar a pós-graduação. O banco não vai deixar de lhe dar o empréstimo. Vai por mim.

— Tá, entendi. Mas como é que vou pagar isso?

— Simples. Preste atenção, meu amor. Você paga o que conseguir e, quando não der mais, deixe de pagar.

— Você quer que o meu nome fique sujo na praça?

— Calma, Romualdo Pereira da Silva! Você não vai ficar com o nome sujo assim de cara. O banco vai te ligar e pedir um acordo, mas você não vai aceitar. Entendeu?

— Ué, mas se eu não aceitar, o meu nome vai ficar sujo.

— Nananinanão! Aí é que entra a esperteza. Depois de mais um tempo, o banco vai te fazer uma segunda proposta, que é sempre melhor. Então, aí você pode pagar, ainda mais porque já vai estar ganhando bem como professor na faculdade.

— Você tem certeza?

— Sim! Não tem erro.

Na manhã seguinte, lá foi o Romualdo fazer o tal empréstimo. Mal pisou na agência, uma funcionária o atendeu. Ele disse o porquê de estar ali, quando a mulher o informou:

— Olha, seu Romualdo, a gerente geralmente não vem tão cedo, mas hoje, por acaso, ela chegou antes da agência abrir. Vou levar o senhor até ela.

Romualdo agradeceu e acompanhou a atendente. Quando ele foi apresentado à gerente, tomou um susto. Era a Lindaura, que lhe sorriu.

O empréstimo foi feito, o professor fez a pós-graduação, mas não conseguiu pagar por completo o empréstimo. Ficou devendo cinco prestações, que foram quitadas após a segunda proposta de acordo, quando já dava aulas na faculdade há quase um ano.

Lindaura e Romualdo, apesar das afinidades carnais, sentiram que faltava algo. Ela, que estava separada do marido, mas ainda não divorciada por questões de plano de saúde, teve uma conversa franca com o namorado. Ele, percebendo que a mulher ainda sentia algo pelo esposo, a aconselhou a tentar uma reaproximação.

Os anos seguintes foram de muito trabalho e estudos. Romualdo fez mestrado e doutorado, o que lhe trouxe ainda mais prestígio na profissão. Também descobriu um talento adormecido e publicou um livro de poemas, que se tornou coqueluche entre os estudantes antes mesmo do lançamento oficial.

Na noite de autógrafos, que aconteceu no salão ao lado da biblioteca da universidade, uma pequena multidão aguardava ansiosa pelo autógrafo da celebridade de última hora. Entre tanta gente, estava um homem de meia-idade, coisa mais alta do que a maioria. Ele carregava um exemplar do livro do Romualdo.

— É um prazer conhecê-lo, professor Romualdo. Há muito ouço falar do senhor. E hoje quero lhe agradecer, além de pedir que faça uma linda dedicatória para a minha esposa.

— E onde ela está?

— Infelizmente, ela não pode vir, pois viajou a trabalho.

— E qual é o nome dela?

— Lindaura.

Romualdo sentiu um frio na barriga, precisou firmar a caneta para a letra não sair trêmula. Antes de devolver o livro ao sujeito, este lhe pediu um abraço. Sem alternativa, o professor se levantou e abraçou Álvaro, o esposo de sua ex-namorada. Ela havia contado ao marido que fora Romualdo que a teria convencido a reatar o casamento. Todavia, parece que omitiu o fato de que os dois tiveram um tórrido romance.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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