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Memorial JK

O segredo sob a concha de mármore

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Ana Maria Campos

Por décadas, os livros de história e os relatórios oficiais sustentaram uma versão confortável para os militares. O ex-presidente Juscelino Kubitschek, o homem que modernizou o Brasil e fundou Brasília, teria morrido em um trágico acidente de trânsito. A batida aconteceu na Rodovia Presidente Dutra, em agosto de 1976. Mas o tempo e a busca por justiça reescreveram esse roteiro de forma dramática.

Relatórios recentes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos trazem à tona uma conclusão bombástica. Juscelino Kubitschek não foi vítima do acaso ou de uma ultrapassagem mal calculada. O político mineiro foi assassinado pelo regime militar. A revelação transforma o que era tratado como fatalidade em um dos crimes políticos mais graves da história do país.

As novas investigações apontam que o Opala em que JK viajava sofreu uma emboscada planejada. A ação deliberada tinha o objetivo de calar uma das vozes mais influentes da oposição moderada da época. O ex-presidente articulava a Frente Ampla pela redemocratização e representava uma ameaça real à continuidade da ditadura.

Essa reviravolta joga uma luz completamente nova sobre o Memorial JK, localizado no ponto mais alto de Brasília. O monumento deixa de ser apenas um local de celebração das conquistas do presidente “Cinquenta Anos em Cinco”. Ele passa a funcionar também como o mausoléu de um mártir executado pelo próprio Estado que ajudou a governar.

O Memorial JK foi construído no canteiro central do Eixo Monumental, na emblemática Praça do Cruzeiro. Essa região é a mais alta do Plano Piloto. Foi exatamente ali que, em maio de 1957, Dom Carlos Carmelo celebrou a primeira missa da nova capital. O local carrega um simbolismo profundo e quase sagrado para a história brasiliense.

A história do museu está diretamente ligada à luta da ex-primeira-dama Sarah Kubitschek. Logo após a morte do marido, ela começou a trabalhar para erguer um monumento que preservasse a memória dele. No mesmo ano da tragédia, Sarah encomendou o projeto arquitetônico ao genial Oscar Niemeyer, amigo pessoal da família.

A Ditadura Militar, no entanto, tentou apagar o legado de Juscelino até mesmo após a sua morte. O presidente Ernesto Geisel proibiu terminantemente o início das obras do memorial em Brasília. A construção só foi liberada anos depois, em 1979, quando o general João Baptista Figueiredo assumiu o Palácio do Planalto.

Para tirar o projeto do papel, Sarah Kubitschek liderou uma grande mobilização nacional em 1979. Junto com o empresário Adolpho Bloch, ela lançou a campanha popular “Você constrói o Memorial JK”. Cidadãos de todo o país doaram dinheiro em mais de 20 bancos para erguer a estrutura de mármore.

A construção levou 17 meses de trabalho intenso no coração da capital federal. O Memorial JK foi finalmente inaugurado no dia 12 de setembro de 1981. A data foi escolhida a dedo pela família e pelos organizadores. Se estivesse vivo, o fundador de Brasília estaria completando 79 anos de idade naquele dia.

O projeto de Oscar Niemeyer é considerado uma obra-prima da arquitetura moderna e do patrimônio nacional. Visto por fora, o edifício principal se apresenta como um imponente bloco de mármore branco. A estrutura minimalista foi desenhada para criar um contraste marcante com o céu intensamente azul de Brasília.

A parte externa do museu conta com belos espelhos d’água e extensos gramados verdes. Nos jardins, os visitantes encontram estátuas de Juscelino e Sarah esculpidas em bronze, sentados lado a lado. Uma placa de granito negro exibe a famosa frase de JK: “Tudo se transforma em alvorada nesta cidade”.

O elemento mais famoso e polêmico do exterior é o monumento principal de 28 metros. No topo do pedestal de concreto, fica uma estátua de Juscelino Kubitschek acenando para a cidade. O político aparece protegido por uma grande concha curva de concreto, que dá a impressão de que ele está subindo.

Essa estrutura gerou pânico e revolta entre os militares mais conservadores da época da inauguração. Eles acusavam Oscar Niemeyer, que era comunista assumido, de projetar uma alusão velada à foice e ao martelo. O arquiteto modificou o desenho original, retirando uma das conchas, mas sempre negou a intenção política.

O coronel reformado Affonso Heliodoro dos Santos, amigo de JK e primeiro diretor do espaço, foi o mediador da crise. Ele usou de muita diplomacia para conter as pressões do exército e evitar que o caso fosse parar na Justiça. Foi a sua habilidade política que garantiu que a estátua permanecesse de pé.

O interior do Memorial JK funciona como um verdadeiro túnel do tempo para os visitantes. Logo na entrada, corredores exibem fotos detalhadas que narram toda a trajetória pessoal e política de Juscelino. O acervo conta com objetos íntimos, medalhas e até a tradicional faixa presidencial usada na posse.

No segundo piso, fica o coração do memorial: a câmara mortuária onde está o túmulo de JK. O ambiente tem uma iluminação mística proporcionada por um vitral colorido projetado pela artista Marianne Peretti. A luz do espaço muda de cor de acordo com a posição do Sol ao longo do dia.

O acervo do museu também abriga relíquias curiosas e marcantes do cotidiano do ex-presidente. Os visitantes podem ver de perto a biblioteca pessoal do político e a Sala de Metas de governo. Na área de exposição principal, fica estacionado o Ford Galaxie LTD, o último carro de luxo utilizado por Juscelino.

O andar superior conta com o Auditório Márcia Kubitschek, em homenagem à filha do casal presidencial. O espaço recebe apresentações culturais e palestras, além de abrigar um belo piano de cauda. Um detalhe genial de Niemeyer é que as 310 poltronas do auditório formam a letra “K” vista de cima.

Todo esse patrimônio material e documental é protegido por uma legislação federal muito rígida no Brasil. A Lei dos Acervos Presidenciais determina que esses documentos são de utilidade nacional e devem ser públicos. O Memorial JK é tombado tanto pelo IPHAN quanto pelo governo do Distrito Federal.

As novas revelações da Comissão da Verdade dão um novo significado a cada metro quadrado desse museu. Visitar o túmulo sob o vitral de Marianne Peretti não é mais apenas um ato de nostalgia política. É encarar de frente uma página trágica que a ditadura tentou esconder sob o asfalto de uma rodovia.

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