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Devaneios do Cadu

O susto

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

No recém-postado conto Os visitantes, observei que o contato com alguns daqueles seres vistos em minhas alucinações tinha sido mais rico do que o descrito no texto. De fato, se em sua maioria os caminhantes passavam por mim silenciosos, uns poucos sorriam e dirigiam-me palavras cujo significado não compreendia, mas cujo sentido era fácil de entender; remetiam não a amizade e sim a partilha, ao fato de estarmos juntos em jornadas diferentes no mesmo universo. Chamei-os não de amigos, mas de companheiros. A presença deles aqueceu-me o coração.

Tive a impressão de que alguns deles guiaram-me em viagens oníricas. Por exemplo, na noite do domingo, dia 10, estava meio chateado por não poder ver o meu Flamengo enfrentar o Grêmio em Porto Alegre; o hospital só oferecia TV aberta, com os canalões e meia dúzia de emissoras religiosas, e o jogo seria transmitido apenas num canal fechado. Assisti como pude, pelo celular, mas era horrível, a imagem não casava com a descrição das jogadas, começaram a transmitir gols que não existiam mas davam um senhor susto… Barbaridades assim.

Diante disso, desisti da partida e voltei a dormir, bem melhor curtir o barato do Tramal. Foi então que um companheiro passou por mim e deu-me um leve sorriso. Pouco depois, tive a impressão de me encontrar em um estádio assistindo a um Flamengo x Grêmio de responsa. Não era o Maraca, que conheço bem; talvez fosse o Olímpico. Seja como for, foi um jogaço, interrompido quando o Flamengo do plano dos humanos fez 1 x 0 e os berros dos locutores me arrancaram dos devaneios.

Na madrugada de 11 para 12, eu estava em meio a um sonho complicado, em que deveria ir a um baile. Lá pelas 4h30 da manhã, a luz de meu quarto acendeu e a vi. Era uma mulher feia, de meia idade, a maquiagem meio borrada, como se estivesse voltando da festa a que eu não comparecera. Não era uma visitante do tipo mais usual; pensei nos tristes e provavelmente, com o susto, nos seres medonhos e inomináveis (embora a figura feminina não fosse monstruosa, apenas feia).

A aparição abriu-me um sorriso e disse:

– Boa noite!

Respondi de bate-pronto, mas gaguejando, visivelmente assustado:

– De… de onde você saiu?

– Sair? De lugar nenhum – respondeu, desenxabida. – Sou auxiliar de enfermagem aqui no hospital, vim apenas checar seus sinais vitais…

Acalmei-me pouco a pouco e declarei:

– Desculpe, estava em meio a um pesadelo…

Mas ela percebeu que não era verdade, que havia sido a sua figura que me assustara. Ficou triste, e eu, totalmente sem graça.

Para terminar, proponho um jogo de adivinhação a vocês: quais partes de Os visitantes e O susto são verdadeiras? Adianto que as alucinações induzidas pelo Tramal foram bem reais; e quanto ao resto? Vi mesmo visitantes, tristes, companheiros? Alguns deles me sorriam e falavam comigo? Assisti mesmo a um Grêmio x Flamengo dos sonhos, melhor que a partida ao vivo e a cores? Inventei na cara dura o episódio com a enfermeira feia, para dar um fecho a meu texto? Foi tudo desvario? Foi tudo engodo, tudo peritagem literária?

A mim de o saber; a vocês, leitores, de indagar e questionar.

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Cadu Matos é o escritor mais publicado no Café Literário.

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