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Teatro

Sebastiana e o sócio de vida

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Sebastiana, tipo que não pede passagem, parecia possuir entendimento amplo sobre a vida. Dos filhos, talvez o mais destoante seja Aldo, que, vez ou outra, se mete em alguma furada. Diziam as más, boas e demais línguas que isso se dá por pura falta de tutano.

Júlia, Rejane e o pequeno Augusto completavam a cria da mulher, que chegou à capital carregando duas sacolas nas costas, uma criança de cada lado, Rejane no peito e o caçula no bucho, logo após virar viúva por tolices do marido em um boteco na cidade de Jacareacanga, no Pará. Sebastiana não teve tempo de esperar o defunto esfriar, pois soube que havia sido jurada pelo algoz do Alcides, um tal João Caolho.

Quando chegou, sem cacife para barganhar, Sebastiana pegou o que deu, um barraco nos fundos de uma quitanda, onde arrumou o suficiente para ela e os seus não morrerem de fome. Acabou se enturmando com o dono do comércio, Juarez, um português com fama de desinteressado por relacionamentos com mulheres, mas afeito a crianças.

Para apaziguar o falatório, Juarez propôs casório com a paraense, que só viu vantagens naquilo. Quando um dos dois não tinha companhia, trocavam confidências, inclusive amorosas. A intimidade era tamanha, que os afagos trocados em público não deixavam dúvida sobre o par.

Juarez, pai no papel e na vida dos filhos de Sebastiana, pensava em uníssono com a companheira que Aldo precisava de cuidados especiais para não cair em armadilhas. O rapaz, no entanto, preferia escutar os sons da rua aos conselhos de casa. E foi assim que se deixou levar pela lábia dos malandros do bairro.

Aldo perdeu dinheiro, inclusive o que não tinha, para os espertalhões. Também foi enganado por mulheres, que viam nele a possibilidade de um perfume, uma bolsa ou até um cinema grátis. E essa situação deixava Juarez mal, a ponto de sentir certa culpa por tamanha falta de traquejo do filho com o raciocínio. Todavia, nem todo esse remorso foi capaz de impedi-lo de soltar uma gargalhada quando Sebastiana definiu o rebento em poucas palavras.

— Sabe, Juarez, no teatro da vida, parece que o papel de trouxa é do nosso Aldo. Que pelo menos venha o Oscar.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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