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Ficção ou facção

Saudades dos tempos em que a classe política fazia política de primeira classe

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Li sobre a conjunção carnal sexo e memória há 65 anos, num adesivo vermelho colado no vidro traseiro de uma Rural Willys, cor azul calcinha, placas AP-5459 de Ponta Grossa/PR. Os pneus traseiros estavam carecas e a lanterna esquerda queimada. Era um domingo, por volta das 7h43 do dia 17 de janeiro de 1959 e fazia 27 graus. Perdão pela divagação a respeito do tempo, mas achei interessante divulgar. Como todo galo velho, perco o bonde, mas nunca a história, tampouco o endereço do galinheiro.

Também não costumo me esquecer do dia do aniversário, mas raramente lembro quantos anos tenho. Na verdade, tenho um só e de nenhum uso extremo ou externo. Aliás, no último e maldito exame de colonoscopia, pedi ao médico para que ele mexesse com todo carinho no anel rodoviário, de modo a preservar as beiradas da rotatória. Acho que ele atendeu meu patético pedido, pois, passados cinco anos e meio do trabalho, ainda não percebi nenhum vazamento.

Não tenho vocação para artista, mas, inspirado nas recomendações do poeta Milton Nascimento, gosto de me aboletar onde o povo está. É por isso que, mesmo sem convite e sem grana, meu sonho de consumo sempre foi passar defronte ao Castelinho, tomar um chopinho no Brother Store e paquerar no Number One. Jamais consegui, mas, como sonhar não paga imposto, já me imaginei levando um papo firme no Zeppelin, em Ipanema, e sendo entrevistado no Copacabana Palace por ninguém menos do que Ibrahim Sued, o que aparecia no horário nobre, mesmo sem saber o que escrevia.

No meio da juventude, cheguei a me achar a loucura das garotas, aquele do tipo pão. O que eu não sabia era o que fazer para uma das meninas querer me pertencer. Além do cabelo grande, nada mais chamava atenção ou causava sensação. Não tinha dinheiro, carro e nem lambreta. Era inteiramente sem sal, de coração gelado e com cara de tarado, daqueles nem um pouco original. Não sabia dançar, mas tardiamente descobri que tinha molho. Na verdade, a decorrência dos suspiros femininos eram meu “vasto narigão” e o número do meu sapato. Boas lembranças do 45 bico fino.

A memória pródiga me remete à máxima de que o tamanho do pé é similar ao do pé sem dedos. Enfim, o que aprendi com gosto nunca esqueço com prazer. Só quando a situação exige algum tipo de alerta. Por exemplo, sei que, para fazer uma boa língua à milanesa, o primeiro passo é passá-la nos ovos. O problema é encontrar os ovos. Às vezes, viajo na maionese e tenho vontade de fazer coisas inimagináveis. Presente de Deus, tenho em minha casa uma mulher maneira e no quintal uma vaca leiteira e uma galinha poedeira.

Dia desses, preocupado com os ataques sem nexo da direita no presidente da esquerda tive vontade de largar a mulher, vender a vaca, comer a galinha com quiabo e exigir que os deputados e senadores vinculados a um tal Jair desobstruíssem a ponte que partiu. Saudades dos bons tempos em que a classe política fazia a mesma política, mas tinha classe. A de hoje não tem classe nem para fazer oposição. Como mulas do chefe da comunidade, a maioria esqueceu que só na ficção é que se pune a vítima e se elogia o criminoso. No Congresso sem vergonha e que age como facção, a memória anda se confundindo com o sexo dos anjos.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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