Curta nossa página


Espírito cômico

Nordestinos mantêm a palavra final sobre os presidentes do Brasil

Publicado

Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Venha de onde vier, a voz e a crença do povo precisam ser respeitadas. Sem alusão alguma aos fanáticos de cabresto, do tipo que crê em mito e disco voador, essa crença é diferente daquele fanatismo que desponta como um escudo de proteção. Ele é a única forma de vontade acessível aos fracos. Agora sim especificando um daqueles que se acham acima do bem e do mal, pode-se definir o fanatismo como uma crença exagerada, uma adesão cega a uma visão de mundo ou doutrina, de tal modo que o fanático identifica sua fé com a verdade absoluta e se sente como o dono do eu que há de mais exato.

Didaticamente, são aqueles que não conseguem enxergar o óbvio a respeito de seus ídolos. Vem daí a máxima atribuída a Ariano Suassuna, mas oficialmente de autoria do português Antônio Prates: “O fanatismo e a inteligência nunca moram na mesma casa”. Mas qual a necessidade de ser fanático em uma terra criada para abrigar gregos, italianos, alemães, judeus, cearenses e baianos. Alguém duvida de que, apesar da idiotizada polarização, estamos fadados ao fracasso se não estivermos juntos? Eu não duvido! Nem os nordestinos. Os resultados das últimas pesquisas de opinião dão conta de que eles já têm uma ideia na cabeça e um número da sorte no coração.

Aliás, cada dia tenho mais certeza de que, por trás da insensatez e da arrogância de parte do Brasil, há a paz, a humildade, a vontade de ser feliz e o humor do povo nordestino. Nenhum vivente da região jamais pensou em demonstrar idolatria a esse ou aquele candidato tomando detergente de cozinha. Com linguagem própria, espírito cômico e risibilidade a toda prova, alguns nordestinos são um povo à parte. É o caso dos cearenses e suas cearensidades. Para eles, Washington, Wellington, Whindersson, Willian e Wellerson são todos filhos do seu Severino da venda. Orlando e Osvaldo são pai e tio do Maicon Jequinson, do Charleston e da Nashville.

O exagero no mocotó ou na buchada de bode no fim de semana normalmente geram dissabores intestinais. E daí? Nada mais original para o povo feliz do Ceará do que se arruma pra rê o mar de rural. Melhor ainda é correr para a areia porque lairreym, lairreym a onda. Nos anos 90, uma das décadas de maiores mudanças no país, o maior problema era encontrar a chamada encruzilhada da fama, localizada bem no centrão de Fortaleza. Nesse cruzamento não havia oferendas aos Exus ou a pombagiras. Além de ecumênico, o espaço podia ser chamado de pedacinho do céu. Podia, mas ficou conhecido mesmo foi pelas três boates de fazer inveja às de Las Vegas. Era uma trilogia de bares, no melhor estilo dos poemas dramáticos da antiga Grécia.

Sinônimos de boa comida, humor variado e forró de primeira, ficavam na Avenida Dom Luís e respondiam no Google Maps por New York New YorkLondon London Quixadá Quixadá. Região aprazível e de povo hospitaleiro, o Nordeste é um celeiro de boas histórias. Algumas mais profanas, outras muito sagradas. É o caso da paraibana Cajazeiras. Na zona rural da cidade, era comum as famílias se apresentarem ao padre da igreja matriz nas missas de domingo. Faltar era sinônimo de condução sob coerção pelo sacristão importado do município vizinho de Pombal. Mãe de Nico e de Neco, dona Almerinda normalmente ocupava a primeira das colunas do templo. Num domingo chuvoso, Almerinda perdeu a hora e, quando chegou, havia somente dois lugares na fileira inicial e um na última.

Mãe zelosa, Almerinda e Neco, o filho mais novo, sentaram-se na primeira e Nico, o mais velho, na rabeira. Encerrada a missa e a longa homilia, o padre, após os agradecimentos ao comércio local pelos refrescos servidos durante a celebração, começou os recados sacerdotais pela quermesse da semana seguinte. “Queridos amigos da paróquia, eu comunico…” Foi imediatamente interrompido pelo abismado Nico. “Seu padre, sou o último da fila. Aproveita que ele está mais próximo e come o Neco”. A igreja quase veio abaixo. O padre, é claro, pediu desculpas públicas pela falha. Eis a razão pela qual torço para que todo tipo de fanatismo nunca alcance os nordestinos. Aliás, de boa lembrança, as eleições de 2022 são a prova de que o povo dos nove estados da região ainda tem palavra final sobre presidentes do Brasil.

……..

Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.