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Autos de uma sexta-feira

O conselho de dona Letícia

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Nunca me achei o último biscoito do pacote, prova disso é que nem nos meus áureos tempos, que não consigo me recordar por simplesmente jamais ter desfrutado de algum, me considerei irresistível. E nem sou, incluindo aí a minha amada genitora, dona Letícia, que sempre foi enfática.

— Olha, Luís Carlos da Silva Martins, estude muito pra não ficar burro.

— Pode deixar, mamãe, que não irei decepcioná-la.

— Não estou preocupada comigo, meu filho. Temo que você vá ter um pouquinho de dificuldade pra arranjar namorada.

Consegui evitar que essa conversa prosseguisse, ainda mais porque não estava disposto a ouvir da minha própria mãe que eu não era o novo Antônio Fagundes. Insegurança, é verdade, típica de gente que evita espelhos para tentar esquecer essa ingrata combinação de genes. E foi assim que decidi seguir o sábio conselho de mamãe. Estudei. Ah, como estudei!

Quando chegou o vestibular, já estava decidido a ser advogado. E lá fui fazer Direito e, depois de dois anos de formado, consegui emprego em um grande escritório. Trabalhava demais, diversas causas ganhas, inúmeros tapinhas nas costas, bolsos praticamente vazios.

O futuro me parecia incongruente com a qualidade do meu trabalho e, por isso, num momento de lucidez, criei coragem, pedi as contas e montei um escritório com um antigo colega de faculdade, o Fausto: Martins & Oliveira Advogados Associados. O começo foi difícil, o faturamento não era tão diferente do que eu ganhava antes, mas a sensação de tomar conta do próprio negócio nos empurrou para o mundo dos tribunais.

Hoje, olhando para trás, percebo que minha mãe estava certa. Vivo confortavelmente, uso ternos sob medida, faço viagens periódicas para locais que sempre desejei conhecer. Sem coragem e paciência para tratamentos de beleza, há tempos cultivo uma barba, que acredito me torna um tipo misterioso. Entretanto, nem tudo são flores.

Sexta-feira passada, Fausto e eu fomos a um bar para relaxar depois de mais uma semana de muito trabalho. O meu amigo é um tipo agradável, de certa forma despojado e deveras confiante. Um paquerador de sucesso, eu diria, ainda mais me tendo como referência. E foi com esse charme que ele conseguiu fazer com que duas belas mulheres aceitassem o convite para se sentarem à nossa mesa.

Laura, cabelos escuros, olhos castanhos, cílios proeminentes, toda sorridente. Fez questão de se sentar ao lado do Fausto e, vez ou outra, um bebericava no copo do outro. Samanta, sem escolha, sentou-se na única cadeira vazia. Loira, olhos esverdeados, parecia mais interessada na tábua de frios, queijos e azeitonas. E eu ali, querendo buscar coragem em mais um gole de cerveja, tentei puxar assunto.

— Você não é de falar muito, né?

— Não com você!

Ah, se eu fosse o Fagundes!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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