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Estilhaços das farpas

Polarização cria inimigos imaginários e ameaça a democracia brasileira

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto Editoria de Imagens/IA

Baseado no filósofo grego Aristóteles, para quem a amizade é uma alma que habita em dois corpos, que fortalece emoções e influencia decisões na vida cotidiana, odeio ter de odiar pessoas. Por isso, tenho ojeriza pelo termo polarização, principalmente a política, que é descrita pelos especialistas como uma divisão que prejudica o diálogo, transforma divergências em inimizades e gera um ambiente de intolerância até no seio familiar. Em termos práticos, no contexto social e político a polarização implica em rachar a coletividade em dois lados conflitantes, com visões de mundo distintas e frequentemente sem espaço para o consenso.

Mais do que discordar de ideias, o vocábulo recém-incluído nos dicionários partidários representa a desafeição, aversão ou desconfiança em relação a quem apoia o partido ou o candidato oposto. Resumindo, fora do mundinho político daqueles que se acham polarizadores ou se sentem polarizados ninguém presta. Considerando que a essência da política é a coexistência com a diversidade, eliminá-la significa que a frágil retórica de um lado busca desumanizar o outro, tentando anular qualquer traço de lógica no pensamento contrário.

É a velha tática de esquecer a consciência e o discernimento para ter mais razão do que a própria razão. No mundo real, efetiva e concretamente os disseminadores de discursos ideológicos criam inimigos imaginários, de modo a facilitar o trabalho de dividir para governar inescrupulosamente sem oposição. Diante disso é que, debatendo ou apenas pensando, sempre parto do pressuposto reflexivo de que, quanto mais polarizada é a sociedade, mais burra, autoritária e menos democrática ela é.

Talvez eles e nós não estejamos entendendo que alguém se antecipou e formatou nossa visão para determinados fatos. Ou seja, fomos expostos a máximas que raramente são nossas. Daí a dificuldade para discernir que nem tudo que é bom para X é maravilhoso para Y. Independentemente do ódio acrescentado ao ódio das frases e dos falsos debates, as redes sociais são o maior exemplo de que o mundo mostrado pela direita é visto de forma diferente pela esquerda. A recíproca não só é verdadeira como é determinante para a trocação de farpas.

Conforme estudos acadêmicos, o Brasil faz parte de uma seleta lista de nações mais afetadas pela disseminação de fake news, o que sabidamente intensifica a desinformação e fomenta a divisão entre os eleitores. Por mais que afirmem o contrário, esta é uma das principais causas da polarização política no país, principalmente quando associada à manipulação de informações por meio das redes sociais. Pior ainda é a certeza de que muitos eleitores não têm entendimento claro sobre o funcionamento das instituições democráticas. Portanto, é natural que a falta de compreensão e de discernimento torne os desinformados vulneráveis e mais suscetíveis à adoção de posições extremas.

É o chamado nós contra eles. Certamente levaremos anos – talvez décadas – para entender que as contrariedades não alteram a natureza das coisas. Pelo contrário. Se alguém duvida, eu cada vez mais me convenço de que, cega e presa à polarização, boa parte da população não enxerga que o Brasil precisa de propostas reais e não de brigas sem fim. Não tenho qualquer vocação para indicador de carapuças, mas é bom registrarmos que todos aqueles que são violentos na oposição acabam tirânicos no poder.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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