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Quase sem reflexões

Poetas e leitores

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Antes de expor os andaimes da construção dos textos Os visitantes e Poetas e leitores, faço algumas reflexões sobre a simbiose escritor-leitor. Ou seja, hoje não tem textão, mas quase.

A palavra “poesia” vem do grego poiesis, que significa ato de criar, fazer, produzir ou compor. Nesse sentido, toda criação artística é poesia, desde a elaboração de uma sinfonia até a escrita de um conto ou de uma quadrinha singela. Romancistas, contistas, cronistas, compositores, todos eles partilham, ao lado dos poetas, da dimensão da poiesis.

O português Fernando Pessoa ensinou que o poeta é um fingidor. Vou mais longe: reservo-me o direito de mentir descaradamente ao leitor, de tentar seduzi-lo por todos os meios, tudo para que, entre a profusão de produções a seu alcance, ele escolha ler o “meu” texto.

O leitor, por sua vez, é livre para rir de minhas tentativas desajeitadas de sedução, para rastrear meus engodos, e decidir, ao fim e ao cabo, continuar com a leitura ou fechar o livro ou sair da tela do dispositivo.

Trata-se, porém, de um jogo de cartas marcadas. Se o poeta quer desesperadamente seduzir, o leitor não se importa muito em ser seduzido – convenhamos, com um mínimo de elegância, nada de estupro literário. Do contrário, não teria um livro ou uma tela de computador ou celular ao alcance da mão.

Autor e leitor movem-se nessa simbiose até que algumas palavras, uma simples frase, ou parágrafos inteiros quebram as barreiras do leitor e penetram em seu psiquismo. A ruptura pode durar um segundo ou uma vida inteira; seja como for, a magia acontece e a vida do leitor torna-se mais rica, por um segundo ou para sempre.

E, com isso, o poeta tem justificado o seu papel, abelha literária a polinizar o leitor.

Agora, a prometida exibição dos andaimes.

No final do conto O susto, desafiei o leitor a dizer quais partes de Os visitantes e O susto eram verdadeiras. “Vi mesmo visitantes, tristes, companheiros? Alguns deles me sorriam e falavam comigo? Assisti mesmo a um Grêmio x Flamengo dos sonhos, melhor que a partida ao vivo e a cores? Inventei na cara dura o episódio com a enfermeira feia, para dar um fecho a meu texto? Foi tudo desvario? Foi tudo engodo, tudo peritagem literária?”

A primeira casca de banana foi a menção a seres tão terríveis que seria loucura dizer-lhes o nome; foi uma citação explícita de Lovecraft. Sim, alguns personagens pareciam sorrir-me e falar comigo, mas só isso. Não, não assisti a um Grêmio x Flamengo perfeito; cansei da transmissão chinfrim, cochilei e “vi” um show de bola do Mengão – mas contra qual time, não faço ideia. Acordei e retomei o jogo real com o gol rubro-negro.

Quanto ao entrevero com a enfermeira feia, fecho do conto O susto, sou obrigado a confessar: é tudo rigorosamente verdadeiro. Meu sonho com uma festa, a chegada da atleta de madrugada, para medir meus sinais vitais – não inventei nada. E muito menos a frase que, para vergonha minha, pronunciei e a entristeceu (e enfeou ainda mais):

– De onde você saiu?

Certas coisas não se inventam.

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