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Confissão

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Edna Domenica - Foto Francisco Filipino

Foi em 2016. O golpe contra a primeira mulher reeleita presidenta do país foi, para mim, como se eu tivesse quebrado um espelho. Desde então, tive sete anos de azar. Sei que a crença em sortilégios é um pecado. Desta feita, o primeiro item a ser assinalado no presente rol de confissão é a crença na maldição do setênio (1).

O segundo: a infidelidade. Fui infiel à democracia, ficando em casa ao invés de invadir o Congresso Nacional (2), quando os deputados de gravatas azuis debocharam de quem espelhava a mim e às mulheres batalhadoras dessa nação com aquela coisa do tchau, querida (3).

O terceiro: a prática da adivinhação. Desde o começo da operação Lava Jato (4) tive a premonição de que delação premiada (5) ia dar em merd@! Em 2018, também adivinhei que o candidato da extrema direita (6) era um azarão.

O quarto: a traição. Traí a Pátria quando não denunciei a amiga de uma amiga que enviou para ela um áudio convocando os baderneiros (7) para… Você sabe o quê!

O quinto: pequei por palavras, já que falei palavrões quando o presidente em exercício, em 2020, imitou moribundos; e mais palavrões quando ele instituiu a carteira de trabalho verde amarela (8).

O sexto: desobedeci ao chefe da nação (e por tabela a alguns líderes religiosos comparsas dele, né?). Ao invés de morrer me entupindo de cloroquina (9), sobrevivi usando máscara e lavando as mãos. Pedi (pelo telefone) para rezar missa por amigos que faleceram. (Na igreja católica não me cobraram nada por isso.).

Pequei também porque fui descrente dos sonhos juvenis e da esperança por justiça social. Amaldiçoei os protagonistas que impediam o progresso da Ciência e desfeiteavam dela. Procurei sublimar esse mau procedimento me reunindo com amigos para organizar duas coletâneas com eles, ainda que por via digital, durante a pandemia (10).

Fingimento é mentira? Se for, então eu menti porque fingi que não sabia que pessoas conhecidas eram da extrema direita … Tive medo do vizinho coxinha (11) … Encobri o adesivo do meu candidato que estava colado no lado de dentro da minha bengala, quando o vizinho entrou no elevador.

Também curti músicas que o pastor considera satânicas: Rapsódia boêmia de Fred Mercury; e aquela ” olê, olê, olê, olá… Etc…

Etc. é melhor do que E.T. (12), não é mesmo?

Obviamente, pratiquei racionalismo para não surtar ao ver pessoas na fila do osso; para não odiar a bandeira nacional que estava sendo usada como capa de super herói pelo eleitor do candidato da extrema direita, no dia da votação; para resistir ao negacionismo (13) praticado por pessoas da saúde e pelo pessoal do zapezape (14).

Obviamente, pratiquei intelectualismo: fiquei contra a imprensa PIG (15) que apoia a extrema direita golpista. Apoiei alguns jornalistas progressistas (16) que criaram canais alocados em plataformas digitais e conseguiram manter a veiculação de notícias fora da bolha golpista. Influenciaram o resultado da eleição presidencial de 2022 que impediu que o presidente 2019-2022 se reelegesse. Tudo leva a crer que aquele sonhava com uma ditadura civil apoiada nos militares.

Pratiquei o pensamento autônomo. Isso não está na lista feita pelo líder da igreja que frequentava, mas é expressão cunhada por Piaget, pesquisador do desenvolvimento da inteligência. Indaguei sobre o modelo econômico nacional. Quem ganha com juros altos em países periféricos? Entendi porque os dois economistas que ganharam o prêmio Nobel se colocaram contra a taxa de juros tão elevada como a praticada pelo Banco Central, em 2023, nesta minha terra.

Ensinar com gosto e até de graça é pecado de luxúria? E se eu contar para meus alunos que isso me dá prazer? É pedofilia?

Mas o pecado maior é que estou com o dízimo (17) atrasado. Tive de emprestar dinheiro para um colega professor cuja esposa teve bebê e foi despedida do emprego.

Refletir é pecado? Andei pensando que fé cega (adjetivo) cega (verbo)…

Mas me explica só uma coisa: como que um suicida faz para pedir perdão? E quem aprova lei de uso abusivo de pesticida? E um genocida?
E quem vota num genocida, como faz para pedir perdão?

Sem igreja, sem um líder religioso por conselheiro, sem respostas ou lista de pecados a assinalar… Fico com perguntas. Uma delas: minha confissão teria que ser esmiuçada? Caberia alguma abstração? Seriam toleráveis alguns desabafos? E a linguagem caricatural para traçar perfis e relatar eventos seria tolerada?

(1) O setênio aqui referido – compreende o período de janeiro de 2016 a janeiro de 2023.

(2) Congresso Nacional – sede do poder legislativo composto pelos deputados federais eleitos pelo voto direto.

(3) Tchau, querida – expressão em tom de deboche pronunciada por parlamentares no Congresso Nacional, em anuência ao impeachment da presidenta do Brasil, em 2016.

(4) Lava jato ou Operação Lava Jato – investigação sobre o funcionamento de empreiteiras em todo o país, assim como da Petrobrás, empresa de petróleo brasileira que teve suas atividades sob suspeição por motivos não só administrativos, mas também políticos partidários.

A operação Lava Jato estava em sua 25ª fase em 2016, quando o Congresso Nacional depôs a presidenta que fora reeleita em 2014.

(5) Delação premiada – instituída em 2013, trata-se da diminuição da pena ou desconto no valor “desviado” pelo suposto réu da Lava Jato que entregasse seus companheiros. Usada nas apurações de 17 de março de 2014 a 1 de fevereiro de 2021. Historicamente ligada ao lavajatismo que teve por consequências o impeachment de uma presidenta e a prisão de um ex presidente.

(6) Extrema direita, direita golpista, extrema destra – liderada por políticos, empresários, policiais rodoviários e militares que afirmavam que havia fraude nas urnas eletrônicas e queriam o voto “auditável” (o que, na prática, equivaleria ao voto de “cabresto”). Eram simpatizantes do fechamento do Congresso Nacional. Apoiaram os caminhoneiros que fecharam estradas e ocuparam a frente de quartéis. Planejavam a volta da ditadura e incentivaram populares a invadir e depredar os prédios dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, numa tentativa de golpe contra o regime democrático.

(7) Baderneiros – Extremistas de direita que, em 2022, acamparam frente a quartéis do exército brasileiro. Autodenominaram-se patriotas e apoiaram a intentona de 08/01/2023. Chamados de “patriotários” por Edu Krieger (roteirista e músico) numa paródia. O termo passou a ser amplamente empregado pelos progressistas.

(8) Carteira de trabalho verde amarela – instituída na gestão presidencial 2019-2022, diminui os encargos patronais e reduz os direitos trabalhistas.

(9) Cloroquina – remédio para malária, mas que foi receitado para covid 19 pelo governo federal brasileiro, em 2020. A doença é causada por vários vírus que têm ARN como material genético, cuja forma lembra a de uma coroa. 2019 foi o ano em que a doença foi identificada pela primeira vez. O coronavírus SARS-CoV-2, tem por sintomas febre, tosse, dificuldades respiratórias e cansaço, e, em alguns casos, pode progredir para pneumonia ou falha respiratória e levar a óbito.

(10) Pandemia – epidemia de doença infecciosa que se espalha entre a população de uma grande região geográfica ou até mesmo o planeta Terra.

(11) Coxinha – simpatizante ou militante da direita política que defende a visão conservadora, voltada para o individual em detrimento do coletivo. Geralmente associados à ideologia ou valores das classes sociais mais privilegiadas.

(12) E.T.– extraterrestre. Seres de outros planetas foram invocados para ajudar a vitória da extrema direita. Os baderneiros chamaram-nos por meio das luzes de celulares, numa das inúmeras manifestações golpistas que ocorreram antes das eleições de 2022.

(13) Negacionismo – conjunto de explicações sobre fatos e fenômenos que, por serem tendenciosas, se contrapõem às investigações ou descobertas científicas.

(14) Zapezape – nome fictício dado a um app para celulares de ampla utilização.

(15) Imprensa PIG – O jornalista Paulo Henrique Amorim criou a expressão Partido da Imprensa Golpista (PIG) para referir aos canais televisivos e periódicos impressos que trabalharam a opinião pública por meio de mentiras, deformações e fraudes.

(16) Progressistas – pessoas contrárias ao ideário da extrema direita.

(17) Dízimo – valor em dinheiro recolhido pelos líderes de determinadas igrejas.

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Edna Domenica é autora de O Setênio (Tão Livros, 2024) e coautora de Rapsódia da Rua da Mooca (MARTÍNEZ, MEROLA, MOTTA, NOBRE, SOUZA, Tão Livros, 2026).

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