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O lago

Um conto enigmático revisitado

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O nome oficial era “lago das montanhas e da chuva”, mas todos o conheciam como “lago das tormentas”. Ou dos tormentos, tanto fazia.

Os ribeirinhos tinham vidas curtas, mas intensas. Tão logo os rapazes e moças chegavam à puberdade, ficavam juntos e procriavam. Era preciso garantir a continuidade da vida, a geração seguinte, uma vez que não havia para onde fugir e, devido às calamidades naturais, pouquíssimos do bando chegavam à velhice.

A chuva era o primeiro obstáculo. Em geral caía no meio do lago, mas por vezes atingia suas margens, arrastando para o fundo homens, mulheres e crianças.

As montanhas eram mais perigosas. Caíam do céu, esmagando as pessoas, e por vezes blocos de material cobriam as margens. Por sorte, a queda não era imprevisível, como a chuva. Primeiro o céu desaparecia, coberto por uma espécie de massa de cores variadas; quando assistiam a isso, todos tratavam de escalar as margens escorregadias, afastando-se o mais possível do lago. Depois vinham a queda e as ondas lançadas contra as margens pelo impacto, que sempre ceifavam vidas.

Por outro lado, a queda dos montes era essencial à sobrevivência do bando. Logo que as águas serenavam, a população dedicava-se à separação, no material pastoso, de tudo que fosse comestível. Ocasionalmente, em um presente dos deuses, vinham cereais sob a forma de grãos, que não necessitavam de tratamento nos laboratórios para ser consumidos e alimentavam famílias inteiras.

Outra dádiva do céu, se é que se pode usar o termo para um fenômeno tão destruidor, eram as tempestades pastosas, as golfadas de uma mescla de sólidos e líquidos. Eram bem mais raras que a queda das montanhas e da chuva e, com sua violência, custavam vidas, mas quase sempre traziam alimentos praticamente intactos, assegurando por muito tempo a sobrevivência.

Ocorria ainda, a intervalos regulares, a queda de um material sólido, mas relativamente leve, de cores variadas. Era uma das poucas matérias-primas à disposição do bando, sendo imediatamente recolhido e usado nas casas e demais construções do grupo. E também nos barcos que permitiam atravessar o lago.

E havia um derradeiro perigo, tão mortal que não ousavam mencioná-lo, nem constava da designação oficial do lugar: o redemoinho. Cedo ou tarde, após a queda das montanhas, a chuva e as tempestades pastosas, uma força misteriosa arrastava para o fundo do lago os materiais que flutuavam na superfície. Os técnicos separadores de nutrientes arriscavam diariamente a vida, sabendo que teriam pouco tempo – no máximo, dois dias – para realizar seu trabalho e em seguida buscar a segurança nas margens. Um rosnado vindo do fundo do lago era o único aviso; essencialmente, porém, o fenômeno era imprevisível, ocorria de um momento para o outro, e sempre havia alguns heróis que pereciam, envoltos pelo turbilhão.

Era assim, e nada se podia fazer a respeito.

Certo dia, um dos poucos anciões do bando repousava perto da água, indiferente ao perigo. Afinal, já vivera bastante, dera muitos filhos e netos ao grupo, estava pronto para partir. De repente, teve uma revelação: ouviu uma voz poderosa, que proferiu palavras em um idioma desconhecido.

De algum modo, o ancião sentiu que aquela algaravia era a chave para a identidade do povo do lago, e tratou de repetir os sons estranhos muitas e muitas vezes. Voltou a sua casa, reuniu os familiares, transmitiu-lhes a mensagem recebida e os encarregou de transmiti-la a todo o grupo. Morreu algum tempo depois, profeta bem-sucedido, quando as palavras transmitidas a ele junto às águas, cujo significado permaneceria para sempre desconhecido – mas que, exatamente por isso, podiam ser entendidas como um estímulo à luta, ou um brado de esperança, ou até mesmo, dependendo do tom em que eram pronunciadas, como um lamento, uma canção de amor, um hino em louvor da sexualidade ou um suave acalanto das mães para seus bebês –, já haviam se incorporado ao cotidiano de todo o grupo.

Hoje, quando alguém se inclina sobre o lago, pode ouvir bem distantes, vindas das margens escorregadias, milhares de vozes jovens que proclamam, com orgulho, as palavras enigmáticas transmitidas ao ancião em um passado remoto, e que se tornaram uma espécie de hino nacional, um elemento definidor da identidade dos ribeirinhos:

“Triste sorte, triste sina, ser bactéria de latrina!”

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