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Lady e o Eremita

Reencontro no Tâmisa e a volta à caverna

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes/IA

Os anos não haviam apagado o perfume dos morangos silvestres nem o gosto do mel compartilhado na velha caverna do vale verdejante. Ao contrário, a ausência apenas transformara a lembrança em febre silenciosa.

Lady regressara a Londres. Como uma dama das antigas cortes britânicas, passou a viver entre salões iluminados por candelabros, saraus aristocráticos e jardins cobertos por névoas matinais. Ainda assim, nenhuma música executada por alaúdes ou violinos era capaz de preencher o vazio deixado pelo homem das montanhas.

O Eremita, por sua vez, abandonou temporariamente o isolamento. Impulsionado por algo que nem os astros que estudava conseguiam explicar, embarcou numa caravela mercante. Cruzou mares revoltos, enfrentou tormentas e noites insones olhando para constelações que pareciam conduzi-lo ao mesmo destino.

Quando aportou às margens do Tâmisa, o céu londrino estava cinzento.

E então a viu. Recostada próxima ao porto, como se o aguardasse havia séculos, Lady trajava um vestido mais curto que o habitual. O vento dançava em seus cabelos castanhos, e seu ventre suavemente desenhado parecia guardar um segredo divino. O coração do eremita quase silenciou. Ela estava ainda mais bela.

Trazia em si algo de Helena de Troia, capaz de incendiar impérios; a imponência sedutora de Cleópatra; a serenidade quase celestial de Nefertiti. Seu olhar guardava o mistério da Mona Lisa, enquanto a firmeza do espírito lembrava Joana d’Arc diante das fogueiras do destino.

Aproximaram-se devagar, sem palavras, como duas almas que jamais haviam realmente se separado. Quando ele pousou a mão sobre o ventre dela, compreendeu. A semente plantada na caverna florescia. Lady sorriu com os olhos marejados.

— Nosso pequeno rebento, sussurrou.

Naquele instante, até o velho Tâmisa pareceu desacelerar suas águas.

O nascimento da criança foi celebrado como se os próprios deuses do Olimpo houvessem descido à Terra para contemplar o milagre. O menino veio ao mundo numa madrugada fria, enquanto a Lua cheia iluminava Londres com um brilho quase sobrenatural. Lady segurava a mão do Eremita com força, e ele, acostumado à solidão das cavernas e ao silêncio das estrelas, sentiu-se pequeno diante da grandeza daquele instante.

Quando ouviu o primeiro choro, fechou os olhos. Jamais qualquer canto místico, qualquer ritual esotérico ou combinação de astros lhe parecera tão poderosa. O menino tinha os olhos da mãe e a serenidade do pai. E os três passaram a viver como personagens arrancados de uma antiga lenda.

Príncipes e nobres cortejaram Lady inúmeras vezes. Havia quem desejasse desposá-la, seduzido por sua beleza madura e por sua elegância quase mitológica. Mas ela permanecia inabalável. Como Penélope esperando Ulisses, resistia às tentações do mundo porque já conhecera seu verdadeiro amor. O Eremita. Sempre ele.

Viajaram juntos por reinos distantes, cruzaram desertos dourados, navegaram rios desconhecidos e deixaram-se conduzir, metaforicamente, por um tapete encantado das Mil e Uma Noites.

Mas o destino, como um velho poeta, conduziu-os de volta ao lugar onde tudo começara. A velha caverna. O vale verdejante. As montanhas silenciosas.

Os anos escorreram como vinho antigo. Na caverna, o tempo parecia diferente. As estações vinham e partiam, mas o amor dos dois permanecia aceso como a chama constante da lareira que aquecia as noites frias.

Lady continuava bela, mas agora, com uma maturidade ainda mais encantadora, carregava no corpo os sinais suaves da vida, marcas que o Eremita beijava com devoção, como quem reverencia mapas sagrados.

À noite, enquanto o filho dormia embalado pelo som do vento nas montanhas, os dois voltavam a pertencer um ao outro. Entre peles de cordeiro, taças de vinho e o perfume das ervas queimando lentamente, trocavam carícias demoradas, beijos profundos e abraços carregados de desejo. O amor físico entre eles jamais perdeu intensidade; apenas ganhou intimidade.

Conheciam cada respiração, cada silêncio, cada arrepio. Ela ainda o cavalgava como nas noites antigas. Ele ainda se perdia nos perfumes dela como um viajante incapaz de abandonar o paraíso.

E assim viveram. Não como rei e rainha de um império, mas como soberanos de um reino invisível, construído entre corpos, cumplicidade, desejo e eternidade.

Dizem que, em noites de Lua cheia, quem atravessa aquele vale consegue ver a luz da caverna ainda acesa. E há quem jure ouvir, misturado ao vento, o eco distante de risos, suspiros apaixonados e peças de xadrez sendo movidas sobre um velho tabuleiro.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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