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Eleitor de olho

Candidatos vivem arte de descrer de alianças

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José Seabra - Foto Pimenta Filho/IA

A política, em sua essência, é construída sobre acordos, expectativas e relações de confiança. Nenhum projeto coletivo prospera sem que seus participantes acreditem, ao menos em alguma medida, que os compromissos assumidos hoje serão respeitados amanhã. Em Brasília, onde a corrida eleitoral para 2026 começa a ganhar contornos mais definidos, essa realidade se mostra ainda mais evidente.

Nos bastidores do poder, entre cafés discretos, reuniões reservadas e conversas de corredor, cresce a percepção de que o cenário político do Distrito Federal atravessa um momento de transição. Muitos atores buscam reorganizar suas posições, costurar alianças e construir pontes capazes de alterar a dinâmica de uma disputa que, até pouco tempo atrás, parecia seguir caminhos previsíveis.

O problema é que confiança nunca foi moeda abundante na política. Ela existe, mas quase sempre acompanhada de cautela. Afinal, quem deposita capital político em um aliado também assume o risco de vê-lo seguir outro caminho quando as circunstâncias mudam. E as circunstâncias, em períodos eleitorais, costumam mudar rapidamente.

Nos comitês e gabinetes, comenta-se que a política é também a arte de administrar percepções. Muitas vezes, procura-se suavizar divergências, minimizar ruídos e apresentar convergências maiores do que realmente existem. É o que popularmente se chama de “dourar a pílula”. A estratégia tem sua utilidade momentânea, uma vez que reduz tensões, preserva negociações e mantém abertas portas que poderiam ser fechadas prematuramente.

Contudo, existe um limite para o poder da maquiagem política. Com o passar do tempo, os fatos tendem a emergir. Divergências ideológicas reaparecem, ambições pessoais se tornam mais visíveis e interesses eleitorais entram em rota de colisão. Quando isso acontece, discursos cuidadosamente construídos passam a ser confrontados pela realidade.

É justamente nesse ponto que muitos projetos políticos enfrentam seu teste decisivo. Não basta criar uma narrativa convincente; é preciso sustentá-la diante dos acontecimentos. O eleitor pode até tolerar acomodações e rearranjos próprios do jogo democrático, mas costuma reagir quando percebe distância excessiva entre o discurso e a prática.

Em Brasília, essa equação ganha relevância especial. O quadro político local apresenta múltiplos polos de poder, lideranças em busca de protagonismo e uma disputa cada vez mais intensa pela ocupação do centro político. Nesse ambiente, alianças serão inevitáveis, mas a solidez delas dependerá menos dos anúncios públicos e mais da capacidade de seus integrantes honrarem compromissos quando surgirem as primeiras dificuldades.

A abertura das urnas, em outubro do próximo ano, será o momento da verdade. Até lá, muitos discursos serão feitos, promessas serão formuladas e articulações ocorrerão longe dos holofotes. Algumas prosperarão, mas outras ficarão pelo caminho. E o eleitor, como sempre, observará tudo com atenção crescente.

No fim das contas, a política continua sendo um exercício permanente de aposta no comportamento humano. E, como em qualquer aposta, existe sempre uma diferença entre aquilo que se espera e aquilo que efetivamente acontece. É nessa distância que se definem vitórias, derrotas e, muitas vezes, o próprio futuro de uma cidade.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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