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Herança

As dores que herdamos

Publicado

Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

As dores que carregamos não as adquirimos quando aqui chegamos. Na verdade, as herdamos das gerações passadas. Usos e costumes são passados de pais para filhos, e aquilo que ficou mal resolvido em um tempo remoto vai ressurgir gerações à frente. Esse é o único motivo pelo qual tradições dificilmente morrem. Ficam adormecidas por algum tempo, até que, como a Hidra de Lorna, despertam para trazer dor e sofrimento a nossa realidade…

Muitas vezes nos perguntamos por que algumas ações que não fazem sentido algum são cometidas por algumas pessoas à nossa volta. Xenofobia, por exemplo. Que medo é esse que temos de pessoas como nós, que trazem como único pecado terem nascido em outros rincões? E… olha só… temos medo do povo, não da pessoa em si…

Eu citei a xenofobia, mas existem mil e uma fobias diferentes. Todas elas nos fazem agir instintivamente, classificando nossos semelhantes como “confiáveis” e “não tão confiáveis assim”, movida apenas por alguma diferença de raça ou comportamento. Geralmente, vencida a etapa de aproximação, descobrimos que estas em nada diferem de nós. Temos reserva quanto a cor, gênero, raça… e a lista continua quilométrica…

Uma das lutas mais idiotas que fazem parte deste rol listado acima é a eterna briga entre os sexos. Homem contra mulher. E, nesse meio, aqueles que não se identificam com seu lado da trincheira acabam recebendo em primeira mão os golpes de um desferido contra o outro. Se há algo que não dá para entender é essa ojeriza que se arrasta por séculos, sem solução. E não dá para entender por um único motivo… os dois são complemento um do outro, o homem sem a mulher não existiria. E o inverso também é verdade.

Somos dois em um, um em dois. Apenas metade do todo. Para que nos completemos, é necessária a junção dos dois. E só nesse momento o milagre da criação pode acontecer. Um não é mais importante que o outro. Os dois tem o mesmo peso quando se fala da perpetuação da espécie.

Algumas almas alegam que a mulher é mais importante porque carrega a nova vida em seu seio por um bom tempo. Mas essa nova vida só se iniciou após a comunhão dos dois corpos. Não houve uma geração espontânea. E, se o parceiro não cumpriu sua parte depois da fecundação, mesmo assim ele não perde sua importância. Porque ele foi necessário para que o processo se iniciasse.

Esse é um dos vários paradoxos da Sociedade. Por que as pessoas se renegam tanto? Por que alguns homens se acham superiores às mulheres, por que algumas mulheres se acham superiores aos homens? Nenhum dos dois tem, sozinho, o poder de criar uma nova vida. E, depois desta criada, o ideal é que os dois permaneçam juntos, para dar um norte para seu descendente. Infelizmente, nem sempre isso acontece…

Talvez a origem disso tudo esteja lá no início de nossa história neste lado da existência… quando a vida era mais complicada do ponto de vista da sobrevivência, quando a raça humana tinha que lutar contra inimigos mais fortes, quando a raça humana ainda não se encontrava no topo da escala evolutiva. Pode ser…

Ou, quem sabe, quando começou a se fixar em determinado território, expulsando antigos moradores daqueles locais… quando passou à condição de “conquistador”. Pode ser. Afinal, por vários períodos da história os representantes masculinos da espécie humana ficavam meses a fio afastados da família, em campanhas de conquista de novos territórios. E as mulheres ficavam sozinhas em seu lar, responsáveis por manter a casa funcional e cuidando de seus filhos.

Talvez venha dessas fases da história essa divisão entre os sexos. Afinal, houve momentos em que os dois se encontravam apenas por alguns momentos. E, claro, cada um dava à sua participação o peso que pensava merecer. E exigia do outro que reconhecesse tal condição.

Sabemos, através da história, que houve povos regidos pelo Matriarcado e povos regidos pelo Patriarcado. Não podemos dizer qual dos dois era melhor ou pior, pois na verdade não importa quem está no comando. Importa o Bem Maior, que é sempre a sobrevivência do Grupo como um todo. E se nesse processo houver necessidade de se sacrificar alguns peões do tabuleiro, tal será feito.

Quando há a transição de um Regime para o outro, a Sociedade mergulha em um Estado de Caos que somente se resolverá quando essa transição se findar. Mas é um processo lento para os padrões humanos. Quem inicia a revolução dificilmente verá os resultados em sua vida. Quem finaliza o processo não faz a menor ideia do que levou a pessoa do passado iniciar tal luta. Apenas colhe os resultados. Mas muitas vezes não compreende a profundidade dos motivos que levaram a desencadear essa revolução.

Sim, não há homogeneidade global quanto ao que ocorre neste. Podemos viver vários tipos de Regime espalhados pelos vários grupos sociais. Mas sempre haverá um grupo que se sobressai. E este será o guia da maioria para se chegar ao resultado esperado. Que é lento, muito lento. E nesse meio tempo sempre haverá aqueles que lutarão contra as mudanças que o tempo impõe. E novas dores serão criadas, para que as gerações vindouras tentem resolver…

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