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MEMÓRIA E PARTIDA

A JANELA DO TEMPO

Publicado

Autor/Imagem:
Gustavo Condurú / Francisco Filippino

O avião levanta voo, com suas asas de metal, plácido e sereno, como se não fosse um simulacro da natureza. Ao fundo, a enseada se enverga languidamente, como menina-moça que esconde querendo mostrar suas curvas: a praia de Botafogo, a Urca mais ao longe e Copacabana, com seus postes iluminando a faixa de areia — uma alça do vestido caída de um dos ombros.

A vida permeia a filosofia dos encontros e dos adeus. Assim, debruço-me na pequena janela do Boeing, nesta noite de junho. Lanço um olhar para o passado, contemplando o futuro que se avizinha depressa.

Não posso dizer que esse futuro é de todo incerto — meu topete grisalho me desmentiria em qualquer exclamação de inocência. Sei o que me encontrará e imagino, com certa clareza, o que se espera de mim. O que conheço da vida já me permite fazer a inferência sem ferir a decência.

Mas há algo de novo. Ou melhor: há algo que se expõe novamente aos meus olhos, vestido de sentimentos e esperanças que pareciam não perdidos por mim, mas desviados do meu encontro havia muito tempo — talvez por ceticismo, reserva ou pelo niilismo nascido das frustrações da vida. É inevitável admitir que também há frustração em me deparar com um sentimento de tão difícil explicação, apesar da intimidade que tenho com ele.

Voando em curva, à vista de um Cristo que iluminava o Corcovado, senti-me garoto outra vez, empinando uma pipa no morro, tentando chegar às nuvens. Um desafio lançado a um deus que eu só visualizava através dos atabaques do terreiro da minha avó. No alto da Ladeira dos Tabajaras, não era só a linha que se movia entre os dedos do menino: os fios de conta também tocavam a imaginação infantil e, silenciosamente, moldavam uma fé que ainda o acalentaria, no futuro, com músicas, fumaças e conselhos ininteligíveis.

O Boeing embica, arfa para cima e depois se apruma, num gesto tão potente quanto elegante. Olho para trás e tenho a Tabajara ao fundo, quase tímida, como a me lembrar, aos sussurros, do menino que fitava o céu pedindo dias melhores.

Nessa janela, os dias se passaram e os anos chegaram. O menino de ontem tornou a encarar o céu, mas não mais para desafiar um deus ou chorar de saudade. Seus olhos deram um salto de fé e de coragem. Hoje é ele quem parte, esperando que o futuro lhe seja pródigo e que os deuses o guardem.

Num repente, o avião toma o rumo para o centro do país, e do olhar do menino escapa um verso silencioso, em oração: uma lágrima contemplativa aos pés do Cristo de braços abertos, aos olhos da velha Tabajara e por sobre a Guanabara. A janelinha do Boeing tornou-se um pequeno oratório, e o céu, o papel que levará as letras de uma nova história.

Que agora, enfim, as janelas testemunhem tempos de felicidade.

No voo Rio-Brasília, 4 de junho de 2026.

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Gustavo Condurú nasceu no Rio de Janeiro, em 1985. Militar de profissão, escreve poesia e crônicas desde a adolescência. Sua escrita é marcada por um olhar sensível sobre a memória, o tempo e as experiências que compõem a condição humana.

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