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Jaques engasgou o funil

Master pode alterar o resultado de outubro

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Autor/Imagem:
Marta Nobre - Foto de Arquivo

Faltam menos de 40 dias para o início das convenções partidárias, período que vai de 20 de julho a 5 de agosto e que transformará pré-candidatos em candidatos oficiais. Até lá, o cenário político brasileiro tende a passar por uma fase de forte compressão, na qual alianças serão consolidadas, palanques estaduais serão montados e estratégias de campanha poderão ser completamente revistas.

Hoje, a disputa presidencial parece polarizada. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca consolidar sua base política e preservar a ampla frente que o sustenta. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro trabalha para ampliar o campo conservador e transformar o sentimento de oposição ao governo em capital eleitoral.

Entretanto, a história recente das eleições brasileiras ensina que as fotografias tiradas meses antes da votação raramente coincidem com o filme exibido no dia da apuração.

Nos bastidores de Brasília, cresce a percepção de que a sucessão presidencial pode voltar a afunilar. O que hoje parece uma corrida de dois polos pode se transformar, nas próximas semanas, em uma disputa marcada por fatos novos capazes de alterar prioridades e narrativas.

Um dos elementos que promete influenciar o debate é o avanço das investigações relacionadas ao caso Banco Master. Embora o desfecho seja imprevisível e dependa exclusivamente dos órgãos de controle e do Poder Judiciário, o tema já produz reflexos políticos. O governo, que até pouco tempo ocupava posição ofensiva no debate público, vê aliados citados ou investigados tendo de responder questionamentos cada vez mais frequentes.

A oposição, por sua vez, enxerga uma oportunidade. Assessores próximos de Flávio Bolsonaro defendem que o tema seja explorado politicamente nos próximos meses. Entre as possibilidades discutidas estaria a tentativa de ampliar a pressão pela instalação de uma CPI envolvendo operações relacionadas ao Banco Master, ao BRB e a estruturas financeiras associadas, como o Credicesta.

Caso essa estratégia avance, o debate eleitoral poderá migrar parcialmente da economia e dos programas de governo para temas ligados à governança, transparência e responsabilidade na gestão de recursos públicos.

Ao mesmo tempo, a disputa não acontece apenas em Brasília. Ela será travada estado por estado. É justamente nos palanques regionais que reside uma das maiores incógnitas da eleição. Governadores, senadores, prefeitos influentes e lideranças locais negociarão apoio até os últimos momentos das convenções. Em diversos estados, os interesses regionais podem falar mais alto do que a fidelidade ideológica, produzindo alianças improváveis e rearranjos inesperados.

Esse processo costuma provocar um fenômeno conhecido pelos estrategistas eleitorais, com a respectiva redução gradual do número de candidaturas competitivas. À medida que os apoios se concentram, o eleitor tende a enxergar com mais clareza quem realmente possui condições de chegar ao segundo turno.

Mas existe uma variável adicional. É que o Brasil entra na reta decisiva da campanha em um ambiente de elevada volatilidade. Escândalos, operações policiais, crises econômicas, decisões judiciais, disputas regionais e até acontecimentos internacionais podem alterar a percepção do eleitorado em poucas semanas.

Por isso, embora Lula e Flávio apareçam como protagonistas naturais da disputa, o período entre as convenções e o início efetivo da campanha pode produzir uma nova configuração política. Não necessariamente para retirar os favoritos da corrida, mas para reduzir diferenças, reorganizar alianças e aumentar a imprevisibilidade.

O resultado é que a eleição de outubro pode caminhar para um cenário menos previsível do que sugerem as análises atuais. A polarização continua existindo, mas talvez já não seja suficiente para explicar sozinha o comportamento do eleitor. O desgaste de lideranças tradicionais, o surgimento de temas inesperados e a capacidade de mobilização dos palanques estaduais podem transformar uma disputa aparentemente definida em uma corrida aberta até os momentos finais.

Se isso ocorrer, as convenções partidárias não serão apenas uma formalidade burocrática. Elas poderão marcar o início de uma nova fase da sucessão presidencial, na qual a principal certeza será justamente a ausência de certezas. Resta lembrar que quando o funil começa a apertar, o improvável costuma deixar de ser impossível.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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