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Eclipses solares

Um presságio com direito a múltiplas interpretações

Publicado

Autor/Imagem:
Marco Mammoli - Texto e Imagem

Apesar das diferenças culturais, quase todas as civilizações interpretaram o eclipse solar como o momento em que o céu deixava de ser previsível e o invisível parecia invadir o mundo dos vivos. Para as civilizações antigas, um eclipse solar raramente era visto apenas como um fenômeno astronômico. Na maior parte das culturas, ele representava uma ruptura da ordem cósmica, um momento em que as forças invisíveis interferiam no funcionamento normal do universo. Como um ataque ao Sol por entidades sobrenaturais. Isso lhe conferia profundo significado mágico, religioso e oculto.

Na China Antiga, os chineses acreditavam que um dragão celestial devorava o Sol. Durante o eclipse, as pessoas batiam tambores, panelas e gongos para assustar a criatura e libertar o astro. O eclipse simbolizava uma luta entre as forças da ordem e do caos. E, caso os eclipses não fossem previstos, o imperador podia ser considerado responsável por desequilíbrios cósmicos. Na Índia, segundo a mitologia hindu, Rahu era um ser que tentou roubar o néctar da imortalidade. Descoberto pelos deuses, teve sua cabeça separada do corpo. Desde então, sua cabeça imortal persegue o Sol e a Lua para devorá-los.

Assim, os eclipses eram considerados períodos de contaminação energética. Evitavam-se refeições, rituais importantes e decisões relevantes. Muitos praticavam meditação e mantras para proteção espiritual. Essa tradição permanece viva em parte da Índia até hoje. Na Mesopotâmia, os sacerdotes-astrólogos babilônicos viam os eclipses como presságios dirigidos aos reis. Onde, um eclipse podia anunciar guerra, peste, fome ou morte do soberano. Em alguns casos, colocava-se um “rei substituto” temporário no trono para absorver o destino maligno previsto pelos céus.

No Egito Antigo, embora os egípcios tenham deixado poucos registros diretos sobre eclipses, sua cosmologia sugere uma interpretação ligada ao combate entre a ordem e as forças destrutivas. O deus solar Rá atravessava diariamente o mundo subterrâneo enfrentando a serpente do caos, Apófis. O eclipse podia ser entendido como uma manifestação visível dessa batalha invisível. Sendo um momento de vulnerabilidade da luz diante das trevas.

Os vikings acreditavam que os lobos celestiais Sköll e Hati perseguiam o Sol e a Lua. Durante um eclipse, acreditava-se que um deles havia alcançado sua presa. O evento era associado ao Ragnarök, o fim dos tempos, representando a fragilidade da ordem cósmica. Para os alquimistas medievais e renascentistas, o eclipse não era apenas um fenômeno físico. Ele simbolizava uma operação da Grande Obra. Onde o Sol representa o Ouro e a Consciência, e a Lua representa a Prata e a Alma. Quando a Lua encobre o Sol ocorre uma união simbólica dos opostos, como o masculino e feminino o espírito e matéria, a consciência e inconsciente e o Rei e Rainha alquímicos. Eles viam esse momento como uma manifestação celeste da fase de Nigredo, quando a luz desaparece para que uma transformação mais profunda possa ocorrer.

Autores herméticos relacionavam eclipses a muitas possibilidades e eventos como as iniciações. revelações ocultas, a morte simbólica do ego e contatos com o sobrenatural. Em linguagem junguiana, seria um encontro temporário da consciência com a sombra. Durante a Idade Média e o Renascimento, muitos ocultistas, magos e astrólogos consideravam os eclipses momentos de extrema potência mágica. Pois, para alguns deles eram momentos nos quais os véus entre os mundos tornavam-se mais finos. Espíritos podiam ser invocados com maior facilidade e os encantamentos de transformação tinham maior eficácia.

Para outros era exatamente o contrário onde os eclipses representavam instabilidade energética e ritualistas inexperientes deveriam evitar trabalhos mágicos importantes. Essa divisão permanece até hoje em várias correntes esotéricas. Apesar da distancia temporal, os eclipses ainda representam uma ruptura da ordem cósmica e das interpretações. Autores ligados à tradição hermética, Rosicruciana e teosófica passaram a interpretar o eclipse sob vários primas. Onde cabem as possibilidades de ser um portal de transformação psicológica., um período de revisão de padrões antigos, uma oportunidade de integração da sombra ou até um símbolo da morte iniciática seguida de renascimento. Dentro desse contexto, o eclipse deixa de ser visto como um presságio externo e passa a ser entendido como um fenômeno interior.

O “outro” lado da curiosidade humana, ao mesmo tempo foi nos mostrando o nascimento da astronomia que, com os trabalhos de muitos, foi nos mostrando as “equações do eclipse”. Foi um processo de mais de dois mil anos envolvendo astrônomos de várias civilizações. Ao mesmo tempo em que interpretações mágicas eram utilizadas outros observadores usavam outro alfabeto para isso: números! Um dos primeiros cálculos surge por volta de 700 a.C., os babilônios descobriram que os eclipses obedeciam a ciclos regulares. Como o Ciclo de Saros de 18 anos, 11 dias e 8 horas!

Após esse período, eclipses semelhantes voltam a ocorrer. Eles não conheciam a causa física do fenômeno, mas conseguiam prever sua ocorrência com surpreendente precisão. “Ferramentas” matemáticas como as equações e a geometria foram surgindo, sendo testadas. Aristarco de Samos, foi um dos primeiros a propor que a Terra orbitava o Sol. Embora sua teoria tenha sido rejeitada por séculos, abriu caminho para uma explicação racional dos eclipses. Hiparco de Niceia, utilizou geometria para calcular a distância da Lua, os tamanhos relativos dos astros e alguns movimentos celestes. Ele foi um dos primeiros a compreender matematicamente como ocorriam os eclipses.

Cláudio Ptolomeu, na obra Almagesto, desenvolveu um sistema matemático capaz de prever eclipses com boa precisão. E durante quase 1.400 anos esse foi o modelo astronômico dominante. Nicolau Copérnico colocou o Sol no centro do sistema! Um escândalo para uma época em que o homem era o centro do universo! Seu modelo simplificou a compreensão dos movimentos celestes.

Foi Kepler quem descobriu as três leis do movimento planetário. Suas equações mostraram que os planetas não se movem em círculos perfeitos, mas em elipses. Essas leis permitiram prever eclipses com precisão muito superior à dos modelos antigos. Em 1687, na obra “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”, Newton formulou as leis do movimento e a Lei da Gravitação Universal.

Pela primeira vez foi possível explicar por que os eclipses acontecem. A famosa equação:
F=G⋅(m_1⋅m_2)/r^2 explica a atração gravitacional entre os corpos celestes. Ou: “A força gravitacional (F) é igual à constante gravitacional universal (G) multiplicada pelo produto das massas de dois corpos (m1 . m2) e dividida pelo quadrado da distância entre os centros desses corpos (r²)”. A partir dela tornou-se possível calcular com extrema precisão as órbitas planetárias, os movimentos da Lua e as datas futuras de eclipses. O mundo e o viver tornam-se mais seguros!

Um presságio com direito a múltiplas interpretações passou a ser um fenômeno físico plenamente compreendido, onde o nome mais importante é Newton. Durante milênios, dragões, deuses, demônios e monstros explicaram o desaparecimento repentino do Sol. Mas quando as equações de Kepler e Newton revelaram a mecânica celeste, o eclipse deixou de ser um presságio sobrenatural para se tornar uma das mais belas demonstrações de que o Universo obedece a leis matemáticas. Ainda assim, mesmo conhecendo os cálculos, continuamos a sentir o mesmo assombro que nossos ancestrais experimentavam quando o céu escurecia em pleno dia. Em latim clássico, e elegante, você pode dizer que “Ut superius, sic inferius”! Ou como os alquimistas falam entre si, “Quod est superius, sicut quod est inferius”!

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Marco Mammoli. Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas. Você pode entrar em contato com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139.

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