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O LADO B DA LITERATURA

AGRIPINO GRIECO, UM RABO DE PAPEL NA ETERNIDADE

Publicado

Autor/Imagem:
DANIEL MARCHI (INTERINO) / ARQUIVO

Quando Agripino Grieco morreu, no Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 1973, aos 84 anos, um jornal o despediu com um título que ele provavelmente teria aprovado: “Grieco: um rabo de papel na eternidade”. Havia desrespeito na fórmula, mas também precisão. O crítico nascido em Paraíba do Sul, em 15 de outubro de 1888, deixava livros, artigos, memórias, desafetos, frases repetidas em rodas literárias e uma reputação pouco compatível com o luto convencional.

A caricatura publicada naquele ano por Appe o mostrava inclinado sobre uma folha, martelo em punho. Não era apenas uma graça gráfica. Agripino escrevia para atingir. Sua crítica tendia a fixar um traço do autor, exagerá-lo e deixá-lo preso a uma imagem difícil de remover. Quando lhe disseram que certo literato, a quem chamara de burro, tinha páginas brilhantes, respondeu: “Mas lógico! São as faíscas da ferradura.” A frase dispensava desenvolvimento. O elogio virava prova contra o elogiado.

Esse gosto pelo golpe curto levou muitos leitores a tomá-lo apenas como um fabricante de desaforos. Seria pouco. Havia em Agripino uma exigência concreta de linguagem. Em entrevista, reclamava de autores que desejavam ser artistas “sem conhecer sua arte por dentro e por fora”. Para ele, não bastavam assunto, prestígio social ou boas intenções. Era preciso conhecer a língua, as palavras, a frase, a tradição que se pretendia continuar ou contrariar. “As palavras é que expressam as ideias”, dizia, recusando a desculpa de que uma ideia relevante pudesse compensar a pobreza da escrita.

O problema é que seu rigor raramente vinha desarmado. Ele gostava demais da sentença final. Ao falar dos maus livros, imaginava uma Sociedade Protetora das Traças, com “planos de produção intensiva”, tão necessária quanto o petróleo: petróleo para as máquinas, traças para os livros ruins. A imagem ficou porque era boa; seu método, porém, tinha custo. Uma frase podia iluminar uma impostura, mas também reduzir um escritor inteiro a uma deformação engenhosa.

 

Agripino com o poeta Augusto Frederico Schmidt, em 1934.

 

 

Machado de Assis não escapava. Agripino o considerava o maior acabamento da prosa brasileira e dizia que talvez morresse sem encontrar outro autor que escrevesse tão bem. Ainda assim, numa conversa na Livraria São José, diante de Manuel Bandeira, observou que Machado “não tinha coragem de despir mulheres. Em seus livros”. A provocação tinha um alvo reconhecível: a discrição erótica machadiana, o corpo quase sempre sugerido, a sexualidade deslocada para a ironia, o ciúme e o subentendido. Mas Agripino não estava interessado em formular uma tese sobre a ficção de Machado. Queria testar a resistência do monumento. Admirar nunca significou ajoelhar-se.

Sua relação com a Academia Brasileira de Letras seguia a mesma lógica. Em diferentes momentos, atacou os acadêmicos como quem descrevia uma fauna particular: candidatos em campanha, jantares, automóveis, uísque, visitas, promessas, votos e o conhecido “bufê” das quintas-feiras. Para Agripino, a cadeira podia transformar um escritor em eleitor profissional. Chegou a chamar a Academia de mausoléu. Perguntado se a instituição já havia construído um no Cemitério São João Batista, respondeu que isso seria “pleonástico”.

Na velhice, porém, seu tom mudou de maneira curiosa. Diante de uma lista de candidatos a uma vaga, disse que não gostava mais de falar dos acadêmicos. Já falara mal demais deles. Com a idade, explicava, passara a sentir piedade dos “imortais”, que iam sumindo, murchando e se reduzindo às suas “verdadeiras proporções”. Não era reconciliação. Era outra forma de crueldade: retirar do adversário até a condição de inimigo importante.

O crítico vivia no Méier, numa casa que as reportagens descrevem cheia de livros, papéis, quadros, lembranças de viagem e caixas de memórias. Falava-se em cinquenta ou sessenta mil volumes, número que ele próprio ajudava a alimentar. A biblioteca era parte da personagem. Nela estavam os autores que julgara, os mortos que pretendia convocar em suas recordações e uma literatura brasileira que, a seus olhos, se confundia com convivências, rivalidades, almoços, traições e carreiras construídas à margem dos livros.

Agripino tinha 1,78 metro, 80 quilos e colarinho 41. Era casado, pai de cinco filhos, gostava de manga, feijão-preto, música, crianças e cachorros; não fumava, bebia vinho com água e ia cedo para a cama. Tinha, porém, uma precaução muito sagaz: detestava o telefone porque não queria ouvir as descomposturas dos autores que criticava. A frase dá a medida de sua posição no meio literário. Seus artigos não passavam sem resposta, e ele preferia que a resposta não chegasse até sua sala.

Donatello Grieco, seu filho, dizia que o pai não poupava ninguém, “nem ele mesmo”. Ao fazer a barba, diante do espelho, talvez dirigisse censuras ao próprio Agripino. A observação não o torna simpático, mas ajuda a situá-lo. Ele parecia necessitar do conflito até no espaço doméstico. A crítica, em sua casa, não era uma atividade de jornal; era um modo de conversar, de lembrar e de medir as pessoas.

Havia, contudo, uma parte de Agripino que não cabia nesse retrato de velho demolidor. Bastava alguém mencionar Paraíba do Sul para que ele voltasse à infância. Num encontro, ao ouvir que o luar da cidade permanecia no mesmo lugar, respondeu: “Um luar de bruxa, seu doutor!” E então surgiam a Rua das Flores, a Rua das Palhas, o Jardim Velho, as procissões, as ladainhas, os enterros, os coretos, os coronéis, as lojas de secos e molhados e os sinos que, segundo ele, tocavam desde 1888.

Nessas lembranças, sua linguagem mudava. Não perdia a ironia — um oficial podia ser rebaixado porque as traças lhe comiam as divisas —, mas ganhava atenção para a vida miúda da cidade: o ruído das bandas, a luz dos jardins, os velhos apelidos, os mortos que voltavam a circular pelas ruas. O menino de Paraíba do Sul permanecia no homem do Méier, cercado por livros e rancores.

Agripino Grieco ainda é lembrado por suas frases, algumas brilhantes, outras apenas ferozes. Isso não basta para encerrá-lo. Sua crítica teve excessos evidentes, e parte de seus veredictos envelheceu junto com as polêmicas que os produziram. Mas ele preservou uma qualidade rara: levava a escrita a sério. Quando encontrava um autor que lhe parecia falso, mal escrito ou inflado pelo prestígio, reagia como quem vê um problema público. Às vezes acertava. Às vezes feria por prazer. Quase nunca passava despercebido.

A caricatura de Appe o deixou com o martelo erguido. Talvez seja justa. Mas há outra imagem possível: a de um velho no Méier, ouvindo dentro de si os sinos de Paraíba do Sul e preparando, entre milhares de livros, mais uma frase contra os vivos.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário, em Notibras, e fundador da Editora Fava, transita entre a literatura, o direito e o ensino. É autor de A Verdade nos Seres e prepara Território do Sonho, livro de contos. Instagram: @prof.danielmarchi

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