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Bares e palcos

Guiko, o embaixador da música das esquinas que Brasília esconde

Publicado

Autor/Imagem:
Carolina Paiva - Fotos Débora Felinto

Há músicos que sobem ao palco para cumprir a agenda. E há aqueles que, mesmo quando o show termina, continuam pertencendo à música. Guiko é desses. Carrega o violão como quem leva um pedaço da própria alma pendurado ao ombro. Não importa se está sob os refletores ou em volta de uma mesa de bar, cercado de amigos e desconhecidos. Basta alguém arriscar um acorde, e a noite encontra um novo rumo.

Talvez o verdadeiro ofício do músico não esteja na profissão, mas na maneira de existir. É isso que Guiko demonstra quando dá ‘uma canja’ para os amigos que costumam se encontrar em um barzinho do Paço Línea, em Águas Claras.

É um destino curioso. O artista aprende cedo a conviver com a solidão, embora jamais caminhe sozinho. Vive cercado de gente, de vozes, de risos e copos tilintando, mas segue perseguindo uma melodia invisível, uma resposta que talvez nem exista. Procura, como tantos poetas, algo que nunca soube exatamente nomear.

Então ecoa Zé Keti, como um velho companheiro de estrada: Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço. E é exatamente assim que Guiko atravessa Brasília. Não como quem vai de um lugar a outro, mas como quem semeia pequenos encontros pelo caminho.

Ser músico nas ruas de uma grande cidade exige coragem. É desafiar a pressa, interromper o relógio, convencer alguém a trocar alguns minutos de distração por alguns instantes de encantamento. É oferecer beleza a uma cidade que, tantas vezes, parece caminhar sem olhar para os lados.

Há nisso uma contradição quase inevitável. Os mesmos que ontem enxergavam a música como incômodo hoje param diante de um ensaio na praça, numa tarde preguiçosa de domingo, e descobrem que aquele som também lhes pertence. A arte tem esse estranho poder de desmontar certezas sem levantar a voz.

Talvez Platão tivesse razão ao imaginar o artista como alguém destinado a revelar o invisível. Talvez o músico seja, antes de tudo, um embaixador da vida. Não representa governos nem fronteiras. Representa emoções. Traduz silêncios. Faz pontes onde antes havia muros.

Entre a vadiagem celebrada pelos sambistas e a malandragem que desafia a dureza dos dias, Guiko segue caminhando. Seu território não cabe num mapa. Está nas calçadas, nos bares, nas praças, nos abraços improvisados e nas canções que nascem sem cerimônia quando alguém pede: “Toca mais uma.”

Em Brasília há quem apenas passe pela cidade, e existem aquelas pessoas que deixam a capital mais afinada. Guiko, com certeza, escolheu a segunda missão.

Serviço
Guiko, professor, voz e violão
(61) 99326.3314

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Carolina Paiva é Editora do Quadradinho em Foco

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