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DESIGUALDADE URBANA

QUANDO A CHUVA DEIXA DE SER POESIA

Publicado

Autor/Imagem:
Fabiana Saka - Francisco Filippino

João, em seus 16 anos, só conhecia as diferenças sociais de ouvir falar. Até ali, o mundo onde vivia era montado para o seu conforto, para as suas necessidades. Com seus amigos não era diferente.

Naquela tarde de quinta-feira nublada, não havia ninguém em casa. João queria umas guloseimas para acompanhar a série que iria maratonar. Foi ao mercado perto de sua rua, desses chiques, com ar-condicionado potente, que vendia até lanches, saladas de fruta e demais refeições prontas que sua mãe adorava.

Enquanto passeava pelas gôndolas, procurando pipoca de micro-ondas e um saco de Doritos, ouviu o forte barulho da chuva desabando lá fora.

João sempre gostou de ver a chuva cair da janela de seu apartamento. Estar ali, naquele andar alto vendo a união das montanhas com as pesadas nuvens, dava-lhe uma sensação de conforto e segurança. Embora não soubesse verbalizar, achava a chuva poética, bonita, com seu cheiro peculiar que trazia calma.

Olhando do mercado, viu, minutos depois, a poesia tornar-se fúria. A chuva era tão forte que as portas automáticas foram travadas para evitar que a água entrasse.

João ficou preso com outras pessoas dentro do mercado. Encostou-se em um balcão, abraçado ao seu pacote de salgadinhos, suspirou entediado e olhou para o relógio.

“Alguns minutos e isso passa. Se a coisa ficar feia, peço a meu pai que venha me buscar de carro”, pensou.

Enquanto ouvia música com seus fones de ouvido, João viu o pânico da moça do caixa, a mesma que minutos antes lhe dera boa tarde. Por curiosidade, baixou o som da música e escutou a conversa dela no celular:

— Mãe? A senhora tirou as crianças do quarto? A telha está aguentando? O nível da rua subiu muito?

Ela falava baixo, mas a voz tremia. João olhou para ela. A moça percebeu e tentou sorrir, como se ainda precisasse parecer calma para os clientes.

— Está tudo bem? — ele perguntou, sem saber direito por quê.

— Espero que sim — respondeu ela, apertando o celular na mão. — Lá em casa, quando chove assim, a gente nunca sabe.

João não respondeu. Não porque não quisesse, mas porque não encontrou frase que servisse.

Também observou o funcionário do estoque, um rapaz que não parecia ter muito mais que a sua idade. Ele estava nervoso. Falava com alguém por áudio, a voz trêmula:

— Se o ônibus não passar por causa do alagamento na ponte, eu vou tentar ir a pé. Vou ver o que faço, mas não deixa a água chegar nos móveis. Tenta levantar a geladeira, o que puder.

Após um trovão, as luzes do mercado piscaram. João continuou tranquilo. Estava na esquina de casa. Mas percebia a aflição dos funcionários, ouvindo conversas sobre encostas, sobre trinta minutos de chuva forte serem suficientes para fazer estrago, tornando-se sentença de morte para muitos.

Foi ali, escutando essas conversas, que a bolha de João se rompeu.
Ele olhou para seu WhatsApp. Não havia mensagens. Ninguém estava perguntando se ele estava bem, porque sua segurança era certa. Sua casa era sólida, seu quarto não seria destruído pela água. Percebeu, incomodado, que a chuva não era a mesma para todos. Para aquelas pessoas, a chuva era inimiga, um monstro que entrava nos lares e levava o que tinham levado anos para pagar. Levava colchão, sofá, documento, uniforme de escola, remédio, fotografia. Levava coisas pequenas que, para quem tem muito, parecem substituíveis, mas que, para quem tem pouco, são quase tudo.

A diferença entre ele e o rapaz do estoque não era somente a geografia. O “logo estou em casa” de João era o “será que ainda terei uma casa?” do outro. Aqueles funcionários moravam em locais de realidade completamente diferente da sua. Além da preocupação com suas famílias e seus lares, estavam preocupados com o transporte público, porque tudo para de funcionar quando o caos se instala na cidade. Eles sem saber se chegariam em segurança em casa, enquanto João estava a um minuto de um banho quente e de sua série favorita.

O garoto olhou para a cesta com os pacotes de salgadinhos e o guaraná natural na sua mão. Todo aquele desejo de série e guloseimas ficou pequeno e fútil diante da urgência da necessidade alheia. Embora tivesse tido boas aulas de sociologia na escola, talvez fosse a primeira vez, em seus 16 anos, que João vivia na prática que o mundo não é igual para todos. Sentiu que tudo ao redor dele era seguro, confiável e certo. E, bem perto dele, havia pessoas com inúmeras vulnerabilidades com as quais ele não se solidarizava e nunca se interessara de fato em ver.

A chuva deu uma trégua. O gerente destravou as portas e João saiu taciturno. Antes de ir embora, olhou outra vez para a moça do caixa.

— Tomara que fique tudo bem na sua casa — disse ele, meio sem jeito.

Ela agradeceu com um movimento de cabeça. Não se mostrava consolada, mas pareceu ouvi-lo.

João caminhou até sua casa pisando nas poças do caminho sem apreensão. Apesar do frescor lá fora, sentia o peito abafado. Ao entrar no seu quarto seco, limpo e impecável, ouviu o som da chuva voltando a apertar. Dessa vez, o som não o ajudou a relaxar. Naquele dia, a chuva não lhe trouxe poesia.

Mais tarde, já em casa, enquanto colocava Stranger Things na TV, cercado de suas guloseimas, o jovem não conseguiu mergulhar em seu momento de lazer. A história corria na tela, mas sua cabeça voltava ao rapaz do estoque: se conseguiria chegar em casa, e, se chegasse, o que encontraria ao abrir a porta.

João pausou a série. Pela janela, viu a água escorrendo pelo vidro. Antes, aquilo era bonito. Agora, era também outra coisa e trazia vários sentimentos que ele estava experimentando pela primeira vez.

…………….

Fabiana Saka é psicóloga clínica e escritora carioca. Formada em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula, com especialização em Terapia Familiar e mediação de conflitos, atua há 13 anos na clínica. É autora de As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo e colaboradora do Café Literário, de Notibras.

 

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