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O tesouro de azulejos do Maranhão

A história e os encantos do Centro Histórico de São Luís

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O Centro Histórico de São Luís, capital do Maranhão, ergue-se como um dos mais importantes monumentos da memória colonial na América Latina. Compreendendo uma vasta área de 220 hectares de extensão, o local abriga mais de 3.000 imóveis tombados pelo patrimônio histórico estadual, dos quais cerca de 1.400 contam com a proteção federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Esse impressionante acervo urbano atrai pesquisadores e turistas de todo o mundo.

A relevância global do conjunto arquitetônico foi consolidada no dia 4 de dezembro de 1997, durante a Assembleia Geral do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO, realizada na cidade de Nápoles, na Itália. Na ocasião, o sítio histórico foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade, tornando-se o nono monumento cultural do Brasil a receber a distinção. O comitê destacou o testemunho excepcional de tradição cultural e a preservação do casario colonial como fatores decisivos para o título.

Diferente da maioria das capitais brasileiras, a fundação europeia de São Luís não se iniciou diretamente sob a coroa de Portugal. Embora registros apontem um pequeno povoado luso-espanhol na região em 1531, a cidade foi oficialmente fundada em 1612 por colonizadores franceses, que a batizaram em homenagem ao rei Luís XIII. Três anos mais tarde, em 1615, as forças portuguesas retomaram o controle da região, desenhando o icônico traçado das ruas em formato de tabuleiro de xadrez que se mantém intacto.

A instabilidade geopolítica colonial do município, contudo, ainda reservaria um capítulo sob o domínio de outra potência europeia. Entre os anos de 1641 e 1644, sob a liderança do administrador holandês Maurício de Nassau, a capital maranhense foi ocupada por tropas dos Países Baixos. Somente após três décadas de disputas e após a expulsão definitiva dos invasores é que a coroa de Portugal conseguiu consolidar o desenvolvimento urbano e arquitetônico que hoje define a identidade visual do centro antigo.

A arquitetura civil do Centro Histórico, desenvolvida predominantemente entre os séculos XVIII e XIX, destaca-se por uma adaptação inteligente ao clima local, marcado por altas temperaturas e forte umidade. Engenheiros e construtores da época projetaram os imóveis com plantas em formato de “L” ou “U”, equipadas com grandes telhados e venezianas que favorecem a circulação do ar. Esse planejamento geométrico permitiu o nascimento de conjuntos uniformes que resistem ao tempo.

A principal marca dessa engenharia climática colonial é o uso extensivo de azulejos na impermeabilização das fachadas feitas de taipa. Essa característica deu a São Luís o título de “Capital dos Azulejos”, por possuir o maior conjunto de ladrilhos coloniais portugueses fora de Portugal. São mais de 300 tipos de peças decoradas, oriundas não apenas do território lusitano, mas também de países como França e Alemanha, que enfeitam os muros e refletem a luz do sol maranhense.

Os edifícios históricos dividem-se em três tipologias principais: sobrados, solares e casas térreas. Os sobrados impressionam pelo porte, apresentando até quatro pavimentos, onde o andar térreo funcionava como comércio e os pisos superiores serviam de moradia. Os solares configuram-se como sobrados suntuosos e dotados de refinamento decorativo. Já as casas térreas dividem-se em classificações como a “morada inteira” — com porta centralizada e duas janelas de cada lado — e a “meia morada”, que traz porta lateral.

O desenho urbano da cidade também se reflete em sua efervescência intelectual e na criatividade de seu povo. Devido à expressiva produção literária local e à concentração histórica de poetas e escritores célebres, como Aluísio de Azevedo, Gonçalves Dias e Maria Firmina dos Reis, São Luís recebeu o apelido de “Atenas Brasileira” ou “Atenas Maranhense”. Essa herança literária moldou o perfil cultural e a identidade artística que a população preserva com orgulho.

Caminhar pelas ladeiras do Centro Histórico revela nomenclaturas curiosas e lendas que habitam o imaginário popular maranhense. A famosa Rua do Giz, por exemplo, recebeu esse nome porque as antigas costureiras da região utilizavam o giz para marcar tecidos, e o pó residual descartado na via misturava-se ao calçamento, fazendo com que pedestres escorregassem. No campo do misticismo, a lenda de Ana Jansen narra a história de uma rica senhora aristocrata que maltratava seus escravizados e, por seus pecados, foi condenada a vagar eternamente pelas ruas escuras em uma carruagem fantasma.

Palácio dos Leões

Dentre os principais pontos de visitação pública e preservação governamental, destacam-se grandes marcos administrativos e religiosos do estado. O Palácio dos Leões funciona como a sede do governo estadual, enquanto o Palácio de La Ravardière abriga a prefeitura. Somam-se a eles a imponente Catedral de São Luís, o Palácio Episcopal, os conventos do Carmo e das Mercês, além de monumentos de forte apelo popular, como a Igreja do Rosário, a Igreja do Desterro, a Fonte do Ribeirão e o tradicional Teatro Artur Azevedo.

A preservação desse valioso cenário urbano ganhou um forte aliado no final da década de 1980 com a criação do Projeto Reviver. Instituído por meio do Decreto Nº 67, de 25 de maio de 1989, pelo então governador do Maranhão, Epitácio Cafeteira, o programa concentrou esforços políticos e financeiros na restauração de cerca de 200 casarões que se encontravam deteriorados e abandonados no tradicional bairro da Praia Grande, revertendo a lógica de abandono da região.

Graças às intervenções estruturais do Projeto Reviver ocorridas entre 1987 e 1990, o calçamento da área foi recuperado seguindo os padrões exatos da época do Império. Atualmente, o tráfego de veículos automotores é proibido na região da Praia Grande, garantindo a integridade física das estruturas históricas e permitindo que os visitantes caminhem com segurança pelos mesmos caminhos percorridos por gerações passadas, em uma verdadeira viagem no tempo.

Hoje, os turistas que exploram o Centro Histórico encontram locais de destaque internacional, como a Rua Portugal, principal cartão-postal repleto de sobrados revestidos de azulejos. Para a experiência gastronômica e cultural, o Mercado das Tulhas (ou Casa das Tulhas) desponta como o local ideal para degustar o doce de espécie e o tradicional Guaraná Jesus. A imersão cultural encerra-se com visitas a museus temáticos fundamentais, como o Museu do Reggae e o Museu do Tambor de Crioula, símbolos da rica identidade do Maranhão.

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