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Vida doméstica

A louça suja e o sonho da casa limpa

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Autor/Imagem:
Fabiana Saka - Foto Francisco Filippino

Mais uma noite. Marcela gira a chave na porta por volta das 20h. Ao abrir a porta, não aspira o perfume de limão, comum em sua casa limpa, mas o cheiro de gordura e sujeira de uma cozinha pedindo limpeza. Mal tira os sapatos, seus olhos já notam a cozinha.

Nelson, seu querido marido, estava no sofá, aproveitando um merecido descanso de recém-aposentado. Assistia pela TV ao documentário sobre a vida de um rockstar.

Marcela e Nelson sempre se deram bem. Em seus mais de 20 anos de casamento, ambos sempre trabalharam fora. Os afazeres domésticos sempre ficaram sob a responsabilidade de Marcela, que nunca se importou. Tinham uma ajudante, Zilda, uma vez por semana, que limpava a casa. Com todos fora durante a semana, a bagunça não era tanta.

Com a aposentadoria de Nelson, contudo, a rotina do casal mudou.

— Eu perdi quase 30% do que eu ganhava, Marcela. Não vai ter como mantermos a Zilda e ainda pagar a cota de condomínio, que está altíssima — contabilizava Nelson.

— Vai ser difícil ficar sem a Zilda, meu bem. Ela é essencial para a limpeza mais pesada… — ponderou Marcela.

Ele interrompeu:

—  Agora eu vou ter tempo de sobra em casa, eu posso fazer tudo o que ela faz, e assim economizamos. Não se preocupe, vai dar tudo certo!

Depois de tantos anos de casados, Marcela ainda adorava Nelson. Era amigo, ouvinte paciente. Suas qualidades sempre foram maiores que seus defeitos… Isso até se aposentar e se instalar de vez em casa. Na nova rotina, o marido mostrou uma versão completamente folgada. Era comum ver coisas espalhadas, sujas e fora do lugar.
A cozinha era um mundo à parte: para fazer uma refeição simples, parecia exigir todas as panelas e tigelas possíveis, deixando o ambiente como se um furacão houvesse acabado de passar.

Às vezes, Marcela chegava a duvidar de que ele tivesse tomado banho, se estava em dia com sua higiene pessoal. Essas situações recorrentes afetaram diretamente o estado emocional de Marcela, o cansaço transbordou e o mau humor se instalou.

Certa noite, após um fechamento de metas exaustivo em seu trabalho, Marcela parou diante da montanha de louça sobre a pia. Havia restos do café da manhã, do almoço, do lanche da tarde e o que parecia uma receita de omelete que exigia seis tigelas diferentes. O “não se preocupe, vai dar tudo certo” havia ficado de lado.

—  Nelson, mais uma vez a pia nesse estado! Você está em casa o dia todo.

O marido, tranquilo, pausou a série na Netflix, olhou Marcela com ternura e soltou uma pérola que, sem Marcela saber, seria mais tarde uma das frases de suas lembranças dos comportamentos abusivos e folgados de seu marido:

—  Ah, amor, estava esperando você chegar com a sua marmita. Assim, lavo ela também, fazendo tudo de uma vez só. Facilita para nós dois.

Marcela não teve o que dizer ante tamanha engenhosidade na resposta, para não dizer “cara de pau”!

Essas situações recorrentes a faziam pensar na vida de solteira como um paraíso luxuoso. Imaginou-se morando em um apartamento pequeno, com a vida infinitamente mais leve, cuidando apenas de si mesma, sem ser sobrecarregada por um adulto funcional que não faz sua parte. Um homem que retrocedeu, saindo do papel de marido e passando ao de filho adolescente.

Afastou o pensamento sombrio. Ter alguém esperando por ela era bom, mesmo que fosse para receber mais do que oferecer.

Algumas semanas depois, o casal celebrava 25 anos de casados. Optaram por fazer uma pequena recepção para comemorar junto de alguns familiares.

Durante o evento, as tias de Nelson, que era como mães para ele, cercaram Marcela. Deram parabéns pelo jantar impecável, pela casa bem cuidada, pela aparência distinta de Marcela. Tia Olga, com seu perfume forte e brincos de pérola, segurou as mãos da esposa do sobrinho e felicitou-a ainda mais:

— Marcela, querida, meus parabéns pelo aniversário de casamento com o Nelsinho! Você é uma felizarda, muito abençoada!

—  Obrigada, tia! Vinte e cinco anos juntos, de muito amor e aprendizado.

— Minha filha, os parabéns são para você, pela sorte que teve na vida. Olhe bem para esse homem que você tem do lado! Um santo, um protetor. Você é muito privilegiada por ter alguém que cuida de você desse jeito, que garante o seu conforto, que não te deixa faltar nada… Uma mulher sem um homem desses do lado é uma pobre mulher. Você é uma rainha, protegida e cuidada. Agradeça muito a Deus por esse marido de ouro e por seu casamento!

Marcela pensou em pontuar para a tia, que os parabéns também deveriam ser dados a ele, que não era menos sortudo por ser cuidado e amado por uma mulher boa e batalhadora, embora às vezes não se mostrasse merecedor. Mas, pensou melhor, deixou passar, não valia o estresse.

As tias pertenciam a uma época em que as mulheres eram valorizadas por sua subserviência e cuidados exclusivos com a família e com o lar. Não valia uma aula de história naquele momento da vida.

De onde estava, Marcela deu uma boa olhada para o “santo” que a protegia e cuidava. Nelson, com os anos estampados no rosto, estava feliz, comendo uma deliciosa salada de frutas servida na sobremesa, sorrindo docemente para as visitas.

Olhou novamente para as tias, que a viam como uma menininha incapaz de atravessar a rua sem o suporte do marido. Sentiu o peso invisível de ser a “sortuda” que, em casa, era a única que vinha entendendo a importância de manter tudo limpo e organizado.

—  É verdade, tia. Ele realmente, dia após dia, vem me fazendo pensar como seria minha vida sozinha, sem ele.

Tia Olga, e as outras que chegaram perto para ouvir a conversa, suspiraram deleitadas com tamanha “devoção”. Marcela tomou um gole de seu drink olhando a taça, limpa e brilhante.

— “Aproveite” — pensou ela, conversando mentalmente com a taça — porque amanhã você só será lavada à noite. Afinal, a marmita só chega às oito.

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Fabiana Saka (@fabianasaka) é psicóloga clínica e escritora carioca. Formada em Psicologia, com especialização em Terapia Familiar e mediação de conflitos, atua há 14 anos na clínica. É autora de As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo e colaboradora do Café Literário, de Notibras.

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