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Santuário pré-histórico nas Caatingas

O legado e a ciência no Parque Nacional Serra da Capivara

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O Parque Nacional Serra da Capivara consolidou-se como uma das mais importantes unidades de conservação brasileiras de proteção integral à natureza. Localizado estrategicamente no sudeste do estado do Piauí, este território preservado ocupa áreas geográficas pertencentes aos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias.

A relevância global desta reserva natural e arqueológica reside no fato de que a área abriga a maior e mais antiga concentração de sítios pré-históricos de todo o continente americano. Estudos científicos profundos e contínuos confirmam que toda a cadeia montanhosa da Capivara era densamente povoada por grupos humanos ativos durante a era pré-colombiana.

A história institucional do parque começou oficialmente na década de 1970, quando foi criado através do decreto de número 83.548, emitido pela Presidência da República em 5 de junho de 1979. A finalidade jurídica e científica daquele ato governamental era clara: proteger um dos mais fundamentais exemplares do patrimônio pré-histórico do país.

Originalmente concebida com uma extensão de 100.764,19 hectares, a proteção legal daquela região biogeográfica foi ampliada significativamente anos mais tarde. O decreto federal de número 99.143, de 12 de março de 1990, oficializou a criação de Áreas de Preservação Permanentes adicionais de 35.000 hectares, sob a atual administração do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O parque funciona como um centro dinâmico de conservação arqueológica, caracterizado por uma imensa riqueza de vestígios humanos e animais que se conservaram intactos durante milênios. O patrimônio cultural e os ecossistemas locais estão intimamente ligados na região, uma vez que a conservação do acervo histórico depende diretamente do equilíbrio biológico da caatinga.

Esse delicado equilíbrio entre os recursos naturais é o principal condicionante na conservação de longo prazo dos recursos culturais ali depositados. Foi exatamente essa mútua dependência ecológica que orientou os critérios de zoneamento, as políticas de gestão e as regras de uso público aplicadas pelo poder público na área do parque.

O espaço geográfico configura-se como um monumental museu a céu aberto rodeado por formações rochosas espetaculares e circuitos de visitação turística. Nestas estruturas geológicas, encontram-se sítios arqueológicos e paleontológicos impressionantes que testemunham, de forma empírica, a coexistência histórica de humanos e animais pré-históricos do passado das Américas.

A implantação bem-sucedida da infraestrutura do parque nacional foi possível graças, em grande parte, ao trabalho incansável da renomada arqueóloga Niède Guidon. A pesquisadora dedicou sua trajetória ao local e atuou como Presidente Emérita da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), instituição responsável pelo co-manejo da área protegida.

Em reconhecimento ao seu valor histórico incomparável, o parque foi declarado pela UNESCO, em 1991, como Patrimônio Cultural da Humanidade. Dois anos mais tarde, em 1993, a relevância do local foi ratificada nacionalmente com a inscrição definitiva no Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

“Pintura rupestre”

Atualmente, existem cerca de 400 sítios arqueológicos catalogados e abertos, nos quais foram encontrados esqueletos humanos, pinturas rupestres abundantes e ferramentas de pedras polidas e lascadas. No emblemático sítio da Toca do Boqueirão da Pedra Furada, 63 datações por carbono-14 estabeleceram uma coluna cronoestratigráfica que recua de 5.000 até impressionantes 59.000 anos antes do presente.

As famosas pinturas rupestres são as manifestações culturais mais abundantes e espetaculares deixadas pelas populações pré-históricas nos paredões e abrigos-sob-rocha da região. O ocre vermelho utilizado para desenhar nas rochas foi identificado em camadas com datações estimadas entre 17.000 e 25.000 anos atrás, comprovando uma duradoura tradição artística e simbólica.

Pesquisas recentes feitas no pedestal da Pedra Furada e no Vale da Pedra Furada trouxeram novos argumentos técnicos, apoiados por métodos de luminescência estimulada opticamente (OSL). Paralelamente, no abrigo rochoso da Toca da Tira Peia, análises laboratoriais trouxeram novas evidências científicas de uma presença humana contínua no Nordeste brasileiro já em 20.000 a.C.

O cotidiano daqueles grupos antigos também incluía o domínio técnico de enormes oficinas líticas descobertas na região norte do parque a partir do ano de 2002. Em uma dessas oficinas pré-históricas, milhares de vestígios e lascas de pedras estavam espalhados pelo solo, cobrindo uma superfície de aproximadamente 25.000 metros quadrados de área.

A riqueza material da unidade é apresentada aos visitantes ao longo de 14 trilhas estruturadas e 64 sítios totalmente preparados para o turismo educativo. Entre os tesouros expostos estão os pedaços de cerâmica utilitária mais antigos de todas as Américas, com datação estimada de 8.960 anos, descobertos na icônica Toca do Sítio do Meio.

Além do patrimônio histórico, o ecossistema da Caatinga surpreende pela biodiversidade com registros de dezenas de mamíferos, aves, répteis e a única população conhecida de macacos-prego que usam ferramentas complexas há pelo menos 3.000 anos. O manejo integrado conduzido pela FUMDHAM busca incluir a população do entorno, aliando o avanço científico ao desenvolvimento socioeconômico regional.

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