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Encontro poético

Guiherme de Queiroz e Daniel Marchi conversam sobre poesia no Rio

Publicado

Autor/Imagem:
Cecilia Baumann - Divulgação

A chuva fazia do Centro do Rio uma cidade mais lenta naquela tarde. Do lado de fora, a Praça Mauá recebia o cinza habitual dos dias molhados; do lado de dentro, no Il Piccolo, instalado no edifício Touring Club, a conversa seguia sem pressa. Naquele encontro, dois artistas, poetas que, embora venham de percursos diferentes, convergem para uma forma idêntica de presença.

Daniel Marchi e Guilherme de Queiroz sentaram-se ali para conversar sobre poesia, mas não apenas isso. Falaram de livros, experiências de escrita, autores, fé, filosofia, filhos, trabalho, rotina e cidade. Falaram também daquele assunto menos visível, mas decisivo para quem escreve: o tempo necessário para que uma ideia deixe de ser apenas vontade e comece a ganhar corpo.

A fotografia do encontro registra uma cena sem solenidade. Não há palco, mesa de debates nem pose de lançamento. Há dois amigos em conversa, num restaurante do Centro, literatura que se aproxima da vida quotidiana. A imagem tem valor justamente por isso: trata-se de dois homens que não se apresentam como personagens de si mesmos, mas como leitores, autores e trabalhadores da palavra.

Guilherme de Queiroz C. da Rocha nasceu no Rio em 1986. Formado em Direito e em Psicologia, construiu uma trajetória que combina o rigor das estruturas jurídicas, a escuta exigida pela clínica e uma relação antiga com a poesia. Escreve desde a adolescência, mas foi em 2024 que reuniu parte desse percurso em Esta leitura é gratuita, publicado pela Editora Patuá.

O livro, sua estreia individual, não surgiu de impulso repentino. Reúne textos escritos ao longo de anos, atravessados por memórias, relações afetivas, dúvidas, pequenas observações da vida diária e inquietações que não se resolvem com facilidade. Guilherme trabalha com uma linguagem que procura proximidade, sem a necessidade de transformar cada experiência em tese ou declaração. Sua poesia se aproxima de quem lê por caminhos aparentemente simples, mas não superficiais.

Há, em sua produção, uma atenção particular ao que costuma passar despercebido. Um gesto doméstico, uma lembrança antiga, uma ausência, uma conversa interrompida, a sensação de mudança diante do próprio tempo. Essa matéria cotidiana não aparece como cenário decorativo; torna-se o próprio centro da escrita. O poeta parece interessado em registrar aquilo que a vida comum quase sempre consome depressa demais.

No perfil @guiesuaspoesias, Guilherme mantém outra frente desse trabalho. Ali, publica poemas próprios e também abre espaço para autores independentes de diferentes regiões e estilos. A prática tem relevância num ambiente literário em que muitos escritores ainda dependem de redes informais para fazer seus textos chegarem a leitores. Em vez de usar a plataforma apenas como vitrine pessoal, ele a transforma em ponto de circulação.

Essa disposição para compartilhar encontra ressonância no trabalho de Daniel Marchi. Poeta, contista, advogado, professor universitário e editor, Daniel construiu nos últimos anos uma presença constante no cenário cultural. Seus livros, A Verdade nos Seres e Território do Sonho, pela Editora Fava, revelam uma escrita voltada à experiência humana, à memória e aos conflitos íntimos que persistem mesmo nas situações aparentemente banais.

Mas a atuação de Daniel não se limita à publicação de seus próprios textos. À frente do Café Literário, no Notibras, ele vem participando de um esforço contínuo de dar visibilidade a autores, livros, encontros e trajetórias que muitas vezes ficam fora dos circuitos mais previsíveis da literatura. É uma atividade editorial que exige leitura atenta, disposição para acolher vozes distintas e responsabilidade diante do texto alheio.

Há uma diferença importante entre simplesmente celebrar escritores e criar condições para que eles circulem. Daniel se ocupa desse segundo trabalho. Sua atuação como editor ajudou a abrir espaço para poetas, cronistas, contistas e autores em início ou meio de percurso, sem transformar a literatura numa competição de vaidades ou num sistema fechado de reconhecimento. Essa prática, mais silenciosa do que parece, tem peso na formação de uma cena cultural viva.

É nesse ponto que o encontro entre Daniel Marchi e Guilherme de Queiroz ganha interesse maior. Ambos escrevem, naturalmente, mas não estão restritos ao próprio nome. Guilherme cria espaço para outros autores em sua presença digital; Daniel faz algo semelhante por meio do trabalho editorial e da articulação de projetos culturais. Os dois conhecem, por experiência, a dificuldade de escrever em meio às obrigações profissionais, às demandas da família, à rotina urbana e à necessidade de manter a própria vida em movimento.

A conversa no Il Piccolo passou por essas questões. Não como lamento, mas como reconhecimento de uma condição comum. A literatura não se faz apenas em mesas silenciosas, cercada de tempo livre e disponibilidade absoluta. Ela também nasce entre compromissos, mensagens não respondidas, filhos que exigem atenção, aulas, processos, trabalho, deslocamentos e dias em que a escrita precisa ser defendida contra a pressa.

Talvez por isso o encontro tenha ocorrido no Centro do Rio, território de travessias, trabalho, memória e permanentes reinvenções. A Praça Mauá, que nas últimas décadas viu o abandono, a reconfiguração urbana e a retomada de espaços culturais, serve como pano de fundo adequado para uma conversa sobre continuidade. Os dois poetas pertencem a uma geração que escreve sem esperar que a cidade lhes ofereça condições ideais. Escrevem dentro dela, com suas dificuldades, seus deslocamentos e seus encontros ocasionais.

Guilherme traz consigo a experiência de quem cresceu numa cidade menos turística e mais cotidiana. Daniel, por sua vez, tem no Rio uma matéria recorrente de reflexão e convivência, tanto como autor quanto como editor. Em ambos, a cidade não aparece necessariamente como cartão-postal ou paisagem sentimental. Está presente na linguagem, no ritmo, nos afetos, nas relações e no modo como cada um observa o que o cerca.

Há ainda outro elemento que aproxima os dois: a recusa em tratar a poesia como adorno. Para ambos, escrever não parece ser uma forma de ornamentar a vida, mas de compreendê-la melhor. A poesia pode nascer de uma lembrança, de uma pergunta, de uma leitura, de uma conversa entre amigos ou de um incômodo que ainda não encontrou explicação. Mas, uma vez escrita, ela passa a circular, encontra outras pessoas e deixa de pertencer apenas a quem a produziu.

Num tempo em que a exposição costuma ser confundida com relevância, Guilherme e Daniel trabalham com outra medida. O reconhecimento que vêm conquistando não depende apenas de números ou de aparições pontuais. Está ligado à permanência, à seriedade com que tratam a palavra e à disposição de construir relações literárias duradouras.

Não se trata de afirmar que ambos já ocupam lugares definitivos, como se a literatura fosse uma escada de degraus previamente distribuídos. A cena cultural carioca é ampla, desigual e em permanente disputa. Há autores excelentes ainda pouco lidos, projetos importantes que desaparecem por falta de apoio e espaços que sobrevivem graças ao esforço quase invisível de quem os mantém. Ainda assim, Daniel Marchi e Guilherme de Queiroz já construíram presença suficiente para serem reconhecidos como parte ativa dessa paisagem.

A conversa no restaurante também incluiu um assunto que, por enquanto, permanece guardado. Os dois trabalham em um projeto ainda em fase de amadurecimento, cuja apresentação deverá ocorrer em breve. Os detalhes não foram divulgados, mas a expectativa é de que a iniciativa interesse diretamente à cena literária e poética do Rio de Janeiro.

Não é preciso antecipar promessas para perceber que há algo em curso. As folhas sobre a mesa, os assuntos retomados, a troca de ideias e o cuidado com que ambos falam de literatura indicam que o encontro não foi apenas uma tarde entre amigos. Foi também uma reunião de trabalho, ainda que sem formalidades.

A chuva continuava do lado de fora. Dentro do Il Piccolo, porém, duas trajetórias ligadas pela escrita encontravam um ponto comum: a vontade de seguir fazendo da literatura uma prática possível, compartilhada e viva. Entre livros, filhos, trabalho e projetos, Guilherme e Daniel permanecem escrevendo e, mais importante, criando condições para que outros também escrevam, leiam e encontrem um lugar.

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Cecilia Baumann, especial para o Café Literário.

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