Mãos dadas
A anatomia de uma fixação
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Carlos Drummond de Andrade ensinou, no poema antifascista Sentimento do mundo: “Tenho apenas duas mãos,/ e o sentimento do mundo.” Em seguida, no poema Mãos dadas, tornou mais clara a lição: “O presente é tão grande, não nos afastemos./Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
Isso em 1940, em plena guerra mundial, quando o livro Sentimento do mundo foi lançado. Em 2018, ainda cambaleando após a vitória eleitoral do Bozo, a esquerda fez circular a palavra de ordem: “Ninguém solta a mão de ninguém”. A mesma ideia de resistência à extrema direita com um gesto de amparo mútuo, agora exposta pela negativa.
No meu caso, a fixação por mãos dadas começou mais de uma década depois da publicação do livro de Drummond, bem antes de me descobrir de esquerda. Aos 6-7 anos, caminhar pelas ruas de mãos dadas com minha mãe me parecia o máximo de segurança. Só que eu era uma criança irrequieta e distraída, por vezes largava a mão protetora – e, ao retomá-la, num gesto automático, por vezes me flagrava segurando a mão de uma desconhecida. Risinhos sem graça, pedidos de desculpa, sorrisos condescendentes da estranha, e eu partia, todo pimpão, em busca da mãe querida, de mãos tão carinhosas (que por vezes me aplicavam beliscões de tirar sangue, mas isso é outra história).
Só fui descobrir o quanto isso me marcou aos 14-15 anos, quando o gostar de mãos me fez perder pontos nos sarrinhos de cinema. A coisa funcionava assim: o botocudo sentava ao lado de uma moçoila – bonita ou feia, tanto fazia, o importante era que estivesse viva – e, quando as luzes se apagavam para a exibição do filme, tentava colar o braço no dela. Se os dois braços ficassem juntos por um tempo razoável, tipo 20 segundos, o atleta partia para o alvo seguinte, as pernocas, as coxonas, e por aí seguia (ou melhor, subia). Tudo em silêncio, sem um sorriso, uma piscadela sequer. Quando o filme acabava e as luzes se acendiam, os dois se afastavam sem olhar para o lado, como os estranhos que eram.
Eu fazia tudo isso (hormônios de adolescentes, sempre em ebulição, não pedem, mandam) mas, tão logo colava o braço, patolava a pata da gazela a meu lado. Isso a desconcertava: ficar de mãos dadas só com o namorado, por que eu não investia contra as pernocas, as coxonas ou mais acima, como um garoto normal? Eu era um imbecil, não sabia as regras do sarrinho no cinema? Resultado, a moça libertava a mão, afastava o braço e me olhava feio.
Muitos e muitos anos depois, quando acabou meu segundo casamento, dei uma carona a uma amiguinha de minha filha e a sua mãe, uma divorciada atraente. A mulher ia a meu lado, a filha adolescente, no banco de trás. Lá pelas tantas, ao passar uma marcha, minha mão aproximou-se de seu corpo; ela a segurou carinhosamente, sorriu e colocou-a sobre a coxa. Sorri de volta, retirei-a, pesaroso, e continuei a dirigir. Depois de cada marcha, porém, nossas mãos voltavam a se buscar.
Chegamos, ela e a filha desceram, a fera me convidou para repartir uma garrafa de vinho. Aceitei, claro. A garota nos deu boa noite e foi pro quarto. Ela abriu a garrafa e brindamos a novos amores. Em seguida, aproximou-se, quase colando o corpo ao meu, e murmurou:
– Gosto de ficar de mãos dadas…
– Eu também – respondi bem baixinho.
Começamos a nos beijar e em pouco tempo estávamos na cama, os dedos sempre entrelaçados. Foi uma delícia, não a transa em si – ao contrário, o lance sexual foi quando muito razoável, manter as mãos dadas atrapalha muitas preliminares –, mas uma tara partilhada vale por mil peritagens.
Antes de me dar o beijo de despedida, ela me perguntou se haveria uma segunda vez.
– Claro que sim! E provavelmente uma terceira, talvez uma quarta… – mas logo cortei seu entusiasmo. – Só que os dois sabemos que isso não tem futuro, você é amiga de minha ex, conheço seu ex-marido…
Conhecia sim, um militar da Aeronáutica, forte pra dedéu.
Ela concordou, a fisionomia tristonha.
Então foi isso, o relacionamento deu chabu antes de engrenar. Umas duas vezes por ano, porém, recebo um e-mail dela, com apenas uma frase:
– Tô com vontade de ficar de mãos dadas…
E eu compareço. Sempre. Há mais de 30 anos.
Fazer o quê? Tara é tara.