Velherengo
À cata de moçoilas
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Gosto da palavra mulherengo, apesar de considerá-la feia pra dedéu, provavelmente por sua sinceridade brutal. Mulherista talvez expressasse a mesma ideia de afã na caça das fêmeas da espécie, porém, justamente por ser menos grosseira, não transmitiria o rechaço social a essa prática. Então, vou de mulherengo.
Só que o ser mulherengo é apenas um degrau numa árdua ascensão. Mulherengo que se preza começa mais cedo, na juventude, como moçerengo, lançando-se à cata de moçoilas mais ou menos rodadas, tanto faz. Com o tempo, deixa para trás a práxis de mocerengo e a subsequente, de mulherengo, e assume o status de madurengo, trocando seu reino por uma senhora ou uma coroa. Como essa faixa etária feminina há muito tempo ri da definição estreita de Balzac para a mulher de 30 anos, o madurengo percorre feliz seus férteis campos de caça atrás de presas mais que complacentes, sejam elas balzaquianas de 35-40 aninhos ou coroas de 70 – 75 outonos.
Mas chega um momento em que é forçoso admitir que seus dias de glória como madurengo pertencem ao passado. Muitos, então, penduram as chuteiras, mas há os que se lançam aos ares em novas roupagens, lagartas madurengas metamorfoseadas em borboletas velherengas mais que dispostas a sugar o néctar de flores meio murchas – qualquer prazer diverte e qualquer termo é permitido, exceto velho gaiteiro e, para elas, mocreias, barangas, ofensas desse jaez e, sobretudo, “mulheres da melhor idade” (argh).
Foi o caso de Rafael, velherengo de 82 primaveras. Depois de passar, com distinção e louvor, pelos estágios de mocerengo, mulherengo e madurengo, dedica seus últimos anos a quatro velherengas, parceiras de muitos, muitíssimos carnavais. São elas: a paraense Hortência, 80 aninhos; a pernambucana Jussara, uma jovenzinha de 78 anos; a goiana Selma, da sua idade; e a paranaense Consuelo, 84 anos. Ele as conhecera quando eram madurengas e foram envelhecendo com ele, num misto de tesão, amizade e muita cumplicidade, sempre fazendo coisinhas gostosas. A exceção nesse esquema é Consuelo. Ela ocupa um lugar especial em seu coração e em suas partes baixas, pois transam desde que ambos eram mocerengos na ponta dos cascos.
Quer dizer, transavam. Até os 75 anos dela, ao vivo e em cores. Depois sexo online e há três anos nem isso, restrição que veillesse oblige e idade exige. O mesmo acontece com as três outras velherengas: às vezes ligam, ansiosas por uma tórrida (vá lá, morna) sessão de sexo virtual, mas acabam falando dos netos, dos respectivos planos de saúde e da bateria de exames a que se submetem, no afã de prolongar suas vidas de cristal.
Por sorte, até agora, os deuses não se interessaram em mandar buscar nenhuma das quatro, e nem Rafael. Talvez por esquecimento ou, quem sabe, pela curiosidade em ver como se saem na nova etapa, a derradeira, cada vez mais próxima, a de moribunderengo.