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Sebastianismos

A coisa começou entre 1530 e 1540…

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Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O sebastianismo está incrustado no psiquismo luso-brasileiro. A coisa começou entre 1530 e 1540, quando o sapateiro Gonçalo Annes Bandarra compôs trovas de caráter messiânico, nas quais profetizava a vinda do Encoberto e a expansão mundial do catolicismo sob a liderança de um rei português.

Após o desaparecimento de dom Sebastião, em 1578, o rei derrotado na batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, foi identificado ao Encoberto; seu retorno triunfante levaria Portugal à grandeza entre as nações.

Em 1640, dom João, oitavo duque de Bragança, foi proclamado rei de Portugal; era o fim da União Ibérica, entre as coroas da Espanha e Portugal. Os 28 anos da guerra da Restauração – que se estenderam após a morte de dom João IV, em 1656 – valeram-lhe a designação de Restaurador. Para a arraia miúda, porém, ele era o Encoberto, cuja vinda fora profetizada um século antes por Bandarra.

Já no Brasil, o buraco é mais embaixo. Para a maioria da tigrada, os sonhos sebastianistas aparentemente se concretizaram com a libertação da cadeia e a vitória eleitoral de Lula em 2022. Por sua vez, os bolsomínions, derrotados nas urnas e num golpe de estado ineptamente conduzido, preveem uma trajetória semelhante para seu mítico líder (vade retro, cruz credo, pé de pato, mangalô três vezes).

A eleição presidencial de 2026 poderá assistir ao confronto entre as duas versões brazucas de sebastianismo, a do prisioneiro em Curitiba, no Paraná, e a do enjaulado na Papudinha, em Brasília. No momento, porém, o cenário é outro: as arquibancadas do Maracanã e as fileiras da torcida do Flamengo, a maior do país.

De um lado, estão os jorgejesuses, saudosos do técnico portuga que comandou a campanha mágica de 2019; do outro, os filipeluíses, recém-entrados em campo, ainda aturdidos pela demissão brutal do comandante da campanha mágica de 2025.

(Não por acaso, utilizo o estilo de designação de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, para os bandos de jagunços, conhecidos pelo nome do chefe; os medeirovazes e os zebebelos, por exemplo.)

Parafraseando a canção Casa de Noca, de Maria Rita, é bem provável que o couro vá comer, não no domicílio da supracitada, mas no Maraca, entre jorgejesuses e filipeluíses, disputando o privilégio de infernizar a vida do pobre J. Pinto Fernandes, o novo técnico rubro-negro, que não havia entrado na história (mais uma paráfrase, agora do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade).

Termino este texto/desabafo de um flamenguista sofrido com uma terceira paráfrase, novamente de Drummond de Andrade, do poema Política literária:

Os jorgejesuses

discutem com os filipeluíses

qual deles é capaz de bater

o(no) técnico indicado

pelo troglodita oficial.

Enquanto isso, o Bap,

presidente do Flamengo

e troglodita oficial,

tira ouro do nariz.

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