CNBB
A defesa da dignidade humana na pauta trabalhista atual
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Quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, se manifesta sobre temas trabalhistas, como fez nesta semana ao criticar a chamada “pejotização irrestrita” e pedir urgência ao STF, não se trata de uma invasão indevida em assuntos “terrenos”, mas da continuidade de uma tradição histórica. Há quem insista que a Igreja deve se restringir à fé e à espiritualidade, como se essas dimensões pudessem ser dissociadas das condições concretas de vida das pessoas. No entanto, quando o trabalho se precariza e direitos são fragilizados, o impacto não é apenas econômico, é humano, social e, sim, moral.
A própria história da Igreja Católica desmonta essa visão limitada. Em 1891, o papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum, um marco na doutrina social da Igreja. Naquele contexto de Revolução Industrial, marcado por jornadas exaustivas, baixos salários e exploração desenfreada, o documento reconheceu o direito dos trabalhadores à organização, à remuneração justa e à dignidade no trabalho. Mais do que isso, estabeleceu que a Igreja não poderia se omitir diante das injustiças sociais. Desde então, outros documentos e papados reforçaram essa linha, consolidando um compromisso histórico com a proteção dos mais vulneráveis.
Diante disso, a crítica da CNBB à pejotização irrestrita não soa como novidade, mas como coerência. A tentativa de transformar trabalhadores em “empresas de si mesmos”, retirando-lhes garantias básicas, ecoa práticas que a própria Igreja já denunciava no século XIX. O debate que hoje chega ao STF não é apenas jurídico, é também ético. E, nesse campo, a voz da Igreja, gostem alguns ou não, continua sendo uma das mais antigas e consistentes na defesa da dignidade do trabalho.