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Surpresa

A dignidade entre os bombons

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Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

A manhã nasceu mentirosa. A previsão prometia um sol de rachar, mas o que vi pela janela foi um lençol de neblina branca sufocando as montanhas. Minha primeira reação foi a desistência: o sofá, a Netflix e um balde de pipoca pareciam o único destino lógico. Mas o desassossego é minha bússola. Decidi que, se não haveria sol, haveria mar, mesmo que sob chuva.

Encontrei o refúgio perfeito: um barzinho com varanda de vidro, onde o som da música ao vivo duelava com o barulho das ondas, que naquele dia batiam com uma fúria incomum. O acaso, ou talvez a mesma teimosia que me levou até lá e reuniu minhas amigas na mesma mesa. Entre um gole e outro, admirávamos aquele mar revolto, quando ele surgiu.

Era jovem, mas o rosto trazia as marcas de quem já viveu três vidas em uma só. Estava limpo, apresentável, e carregava uma caixa de bombons com uma postura que não condizia com a invisibilidade comum aos moradores de rua. O que me fisgou não foi a mercadoria, mas a dicção perfeita e a educação impecável.

“Sou morador de rua”, disse ele, sem rodeios ou vitimismo. “Vendo bombons para pagar meu almoço e dez reais para uma senhora lavar minha roupa.”

Fui puxando o fio daquela meada. Não havia nele o olhar turvo do vício, mas a lucidez de quem conhecia as “peças” que a vida prega. Ele já fora auditor, corretor, gerente de vendas. Tinha terno, gravata, metas e uma família. O divórcio foi o primeiro golpe; a morte dos pais, o nocaute. O luto mal curado abriu brecha para uma experiência desastrosa com drogas, e em seis meses, o gerente de sucesso vegetava em um lixão doméstico.

Ouvi sua história de quedas e tentativas de reerguimento, o retiro pago pelo cunhado, a promessa de Portugal barrada por uma pandemia e uma guerra, o abrigo temporário que se tornou insuportável. Agora, a rua era seu endereço, a pracinha seu teto, e a honestidade seu último escudo.
Comprei os bombons, mas levei comigo o peso daquela conversa. A vida é um equilíbrio precário, pensei.

Três anos se passaram. O tempo, esse senhor que tudo apaga, não apagou aquele encontro da minha memória.

Em uma tarde de sol verdadeiro… desta vez a previsão não falhou, eu estava novamente no mesmo barzinho. O sol brilhava, o mar estava calmo. De repente, ele parou diante da minha mesa. O olhar era o mesmo, mas o semblante estava descansado.

— Lembra de mim? Perguntou, com um sorriso que não vi da primeira vez. Consegui um emprego. Não moro mais na rua. Tenho minha quitinete.

Ele ainda vendia bombons, mas agora o lucro não era para a sobrevivência imediata. Era para o afeto: ele estava juntando dinheiro para visitar a filha. As caixas de doce agora eram compradas com o suor de um salário fixo.

Comprei quatro bombons. Naquele dia, o doce tinha um sabor diferente. Não era apenas chocolate; era o gosto raro e persistente da vitória de quem, mesmo perdendo tudo, não permitiu que a vida lhe roubasse a identidade.

……………………………

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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