Reino de Poesária...
A jornada do verso perdido
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Era uma vez, num dia em que os adjetivos dormiam até mais tarde, que o Reino de Poesária acordou sem seu verso mais precioso: o Verso da Inspiração Eterna — um poema tão antigo que dizem ter sido sussurrado pela primeira palavra do universo.
Estrofelina, a fada poeta, percebeu o sumiço quando tentou abrir a manhã com uma estrofe… e ela veio vazia.
“Alguém desrimatou o amanhecer,” murmurou o Gnomo Semântica, ajeitando seus óculos de metáfora.
Sem hesitar, Estrofelina calçou suas sandálias de rima livre, prendeu um travessão no cabelo e voou em busca do Verso. Foi então que ela ouviu um choro discreto vindo do bosque dos parágrafos órfãos. Lá, encontrou um sapo encantado chorando em iambos tristes.
“Me disseram que eu precisava virar príncipe pra merecer amor… mas eu sou tão mais poema do que nobreza,” disse ele, entre coaxadas.
A fada o consolou com um haicai:
“Não és só sapo,
És verso que pula alto
No lago do sentir.”
Ele sorriu. E juntos seguiram adiante, cruzando rios de reticências e montanhas de intertextualidade, até o Castelo do Ponto Final.
Lá, descobriram a culpada: a Fada Ortográfica havia escondido o Verso porque ele “não seguia as normas do acordo literal”.
“Poema que não respeita regras não devia existir!” — disse ela, severa.
Mas Estrofelina, com brilho nos olhos e poesia na língua, respondeu:
“Regras moldam o texto. Mas é o coração que molda a linguagem.”
E então declamou uma nova versão do Verso Eterno, nascido ali, no improviso:
“Que se quebrem as métricas
se for pra caber um sentimento.
Que as palavras errem o rumo
se for pra alcançar o dentro.”
Diante de tamanha beleza, até a Fada Ortográfica corou. O Verso foi libertado e, naquela noite, Poesária brilhou como nunca: livros dançaram, vírgulas flutuaram e todos dormiram com metáforas nos travesseiros.