Curta nossa página


Aconteceu em 1990

A loura misteriosa (outra teoria da conspiração)

Publicado

Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Essa história me foi contada por um amigo, pessoa muito séria da qual não tenho motivos para duvidar. Ele tinha 11 anos em 1990 e foi testemunha ocular de um fato histórico acontecido em março daquele ano. Sua mãe, recém separada depois de uma relação conturbada com seu pai, buscava na justiça uma pensão para o sustento de seus 4 filhos em um divórcio litigioso, cuja sentença demoraria ainda quase um ano para ser definida.

A situação exigia que ela intensificasse sua atividade profissional, a venda de joias, para garantir uma renda razoável que desse conta de alimentar, vestir, pagar escola e dar um mínimo de conforto para as crianças.

O trabalho não era fácil, pois ela dependia do boca-a-boca dos clientes antigos com pessoas de suas relações, mas não era fácil encontrar quem estivesse interessado, e mais, com dinheiro disponível para comprar algum objeto para seu uso pessoal, ou presentear alguém, ou mesmo investir, pois era uma forma de proteger o dinheiro contra os altos índices de inflação que chegavam até 80% ao mês nos finais dos anos 1980, início dos 1990.

Ela mantinha na própria casa um pequeno estoque, repondo-o à medida em que as vendas eram feitas e contava com uma reserva financeira para alguma emergência e, eventualmente, poder adquirir uma quantidade maior de peças de ouro e pedras preciosas se houvesse uma encomenda um pouco mais volumosa.

Nos dias em que algum cliente ia fazer uma aquisição, a fim de as crianças não atrapalharem o trabalho, pedia ao meu amigo, o mais velho, para cuidar dos menores na praça em frente à casa, onde podiam brincar em segurança, pois moravam em uma vila fechada, um local de pouco movimento de veículos.

O dia 10 de março de 1990 foi uma dessas ocasiões. Meu amigo havia sido recomendado severamente pela mãe para não permitir que nenhum dos irmãos desobedecesse a determinação, pois havia a expectativa, depois de vários dias de total calmaria, da realização de uma grande venda, cuja concretização garantiria renda suficiente para as despesas do lar por, pelo menos, uns três meses.

Já na praça com os irmãos menores, atento para não descuidar das orientações maternas, ele observou a chegada de um carro preto, bem grande, possivelmente importado, pois não soube identificar a marca e o modelo. O automóvel era conduzido por um motorista impecavelmente uniformizado, terno e gravata azul marinho, na cabeça, um quepe da mesma cor e camisa branca. Do banco traseiro desembarcou uma jovem senhora de seus 30 e poucos anos, não era bonita, mas muito elegante, de estatura média, compleição física esguia, cabelos louros, portando uma valise.

A visita demorou em torno de uma hora e meia, bem mais longa do que a maioria dos casos e a senhora saiu sem a valise. Meu amigo não compreendeu o que havia ocorrido, imaginou que a expectativa da mãe houvera sido frustrada. Ela depois explicou aliviada, muito ao contrário, explicou, a venda havia sido um sucesso, mas como o valor era muito elevado, foi preciso que a compradora deixasse o dinheiro, conteúdo da valise, em confiança, pois ela (a mãe) não tinha como manter toda aquela joia em seu estoque. Meu amigo entendeu a explicação da mãe. Já os irmãos menores, não tinham a mesma capacidade, mas compartilharam o sentimento, pois foram contagiados pela felicidade de ambos.

Passados alguns dias a mulher do carro importado retornou e as crianças, mais uma vez, na praça em frente, observaram-na entrar na casa. Desta vez a visita foi mais rápida; em meia hora ela surgiu de volta à porta da casa com sua valise aparentemente bem abastecida e pesada. O motorista com seu uniforme impecável a aguardava fora do carro e correu em sua direção tomando a encomenda em uma das mãos e, com a outra, abrindo a porta traseira do veículo para sua patroa se acomodar, colocou o volume no porta-malas e foram embora.

No dia 15 de março o presidente eleito, Fernando Collor de Melo, subiu a rampa do Palácio do Planalto, tendo a seu lado sua jovem esposa Roseane Brandão Malta, conhecida popularmente como Rosane Collor. À noite, a família reunida na sala, após o jantar, assistia ao “Jornal Nacional” repercutindo a cerimônia de posse. Menos de dois anos depois, no final de setembro de 1992, ele sofreria impeachment, mas essa é outra história. O noticiário daquele dia tratou exclusivamente dos acontecimentos em torno daquela efeméride.

Em seguida a dupla de âncoras do jornal passou a informar a respeito da composição do novo ministério:

– Justiça, Bernardo Cabral;

– Educação, Carlos Chiarelli;

– Trabalho, Rogério Magri etc.

Os nomes eram mencionados e a TV exibia a foto de cada um.

– Economia, Fazenda e Planejamento, Zélia Cardoso de Mello…

– Ei, mãe, essa não é a mulher que esteve aqui em nossa casa, comprando joias dias atrás?

– Não fala bobagem menino, aquela era outra pessoa! Pelo tom da resposta, meu amigo já pressentiu que aquele era um assunto proibido e ele não ousaria mencionar novamente.

No dia seguinte, 16 de março, “break news”: o “Plano Collor” é decretado! O dinheiro excedente a Cr$ 50 mil (cinquenta mil cruzeiros), a velha moeda ressuscitada por Collor, montante equivalente a US$ 13 mil (treze mil dólares), nas contas de todos os brasileiros havia sido bloqueado e só poderiam ser resgatados após 18 meses. Juntamente com o plano, decretado feriado nacional no dia seguinte.

Houve grande confusão e desespero na população em geral. Pessoas com suas economias de vários anos depositados, em sua maioria, na caderneta de poupança, muitas com negócios em andamento, tais como compra de imóvel, carro, viagens e até mesmo cirurgias marcadas etc. teriam de rever os planos. Pânico geral! Houve casos, não poucos, de pessoas atentando contra a própria vida.

Mas claro, alguns tiveram mais “sorte” e, “coincidência das coincidências”, dias antes puderam sacar seus recursos para comprar algum bem a garantir a rentabilidade e a liquidez de suas reservas, como foi o caso daquela misteriosa jovem senhora que visitou a casa da família do meu amigo para comprar joias.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.